Publicado por: Rodrigo A. Corrêa em: 16 16UTC Novembro 16UTC 2009
Por Rodrigo A. Correa
O dez de novembro de 2009 foi caprichoso. Dormi de madrugada e acordei cedo, embora só fosse labutar das duas da tarde até dez e meia da noite. Recebi o convite por telefone e o endereço por e-mail.
Que bom, dia de sacudir o corpo e trabalhar. Pra chegar no trampo, uma experiência de quatro dias, era preciso localizar no mapa como chegaria lá. Instruções: caminha um pouco, pega o primeiro ônibus, desce e embarca no segundo. Tempo previsto de viagem: quase duas horas. Gelei e ao mesmo tempo comecei a suar muito. Eu tinha apenas uma hora e quarenta minutos. Será que na estreia já vou chegar atrasado. Mas a realidade, neste caso, era menos dura e longa. Fiz o trajeto de dois ônibus em cinquenta minutos e aí começou a caminhada. Caminhei, comi rapidamente um Angu qualquer, com gosto de cabo de guarda chuva enferrujado e sai do bar apressado. O número na rua Jesuíno Feliz era 875. Pelo menos era assim que estava no e-mail. Perguntei pelo nome da empresa, andei duzentos metros pra cima, pra baixo, na outra quadra. Mas ninguém conhecia a bendita empresa. Estava quase envergonhado. O horário bateu e eu não estava lá. Bastante suado e desatinado acabei ligando pra o amigo que tinha me convidado.
- Oi, Ildo acho que errei o endereço.
- Que endereço você tem aí?
- Rua Jesuíno Feliz, 875.
- Ih, meu querido “gato Felix” a Moça da produção te passou a informação errada no e-mail. A empresa fica no número 2875.
Bom, acompanhado do sol escaldante, acima de 32 graus fui subindo aquela rua interminável.
Cheguei molhado e ressequido e foi assim feito um gato molhado que eu me apresentei.
Pedir para tomar um pouco d’água. Entornei quase dois litros: foram seis copos de 300ml.
Logo me levaram pra uma sala com ar condicionado, temperatura ambiente de 23 graus, aquilo no primeiro momento parecia uma geladeira, frio, entretanto, como sou filho do vento, o meu corpo acabou se acostumando. Tomei mais “um pouquinho” de água e um cafezinho e trabalhei a tarde e a noite. Sou o gato Felix, sou feliz!!! As pessoas foram saindo e eu prosseguia na conclusão da minha tarefa. Quando o último falou para mim que iria embora (logo depois lembrou que uma nova turma chegaria mais tarde- o que me salvou, será?).
Fiquei eu e o vigia da empresa. Eu dentro da sala e ele na entrada do casarão (mas eu não tinha sido apresentado a ele). Pensei, mesmo que ele tenha sido avisado da minha presença, ele não me conhece).
E vocês sabem que aconteceu o apagão e aonde eu estava ficou tudo no breu. Minha santa, umas batidas na porta e ela se abre. Um homem com uma vela na mão pergunta se eu sou quem eu sou. É claro. Se eu brinco sou capaz de levar um tiro, um tiro no semi- escuro!
O trabalho que eu fazia, fazia no computador, sabe quando você gela, treme e sua, três vêzes no mesmo dia, talvez ninguém saiba?
Não, eu não perdi tudo, tudo que havia escrito. Quase!
E agora como vou pra casa?
Nunca havia estado naquele lugar e naquela escuridão duvido que algum taxista chegasse lá, e se fosse eu estaria pagando pra trabalhar, que fase braba. Afinal estou a quilômetros da minha house. Detalhe: eu achava que a queda de luz era coisa daquela região. Se eu voltasse pelo mesmo caminho que cheguei iria caminhar mais de dois quilometros na escuridão. Fiquei sabendo de uma parada junto ao aeroporto.
Perguntei ao vigia qual era o melhor caminho e enveredei quase “cego” por um caminho desconhecido.
Descobri que todos os gatos são pardos. Eu tinha olhos de gato e segui, mais a frente (novamente pingando) perguntei a dois “gatos pardos”: Como se chega na parada de ônibus?
-É fácil. Você sobe a ladeira, vai contornando o hotel, atravessa a passarela e pronto.
- Miauuuuuu!!
E lá foi o Garfield (Interrupção da consciência.Você não é o Felix? Sou pardo). O Garfield que existe em mim vai tateando aquelas ruas. Achou que vi um gatinho! Opa, esse é gato preto! A única exceção. Miei: boa noite e segui.
Minhas patas estavam geladas, meus pelos eriçados. Gato de bota, gato molhado.
Quando cheguei debaixo da passarela, vi muitos gatos pardos, agitados, desconfiados, com medo. E o escuro continuava assombrante. Atravessei a passarela, quase camuflado, e nenhum cachorro grande me atacou.
Uma centena de gatos espera o comboio. Passaram dois ônibus, no terceiro um nome conhecido. Vou pegar este e no fim da linha agarro outro.
O motorista dobrou na primeira entrada a direita, um avião aterrisou a cinquenta metros da minha cabeça e eu… (Gelei pela centésima vez). Toda a minha vida o trajeto seguia em frente. Porque dobrou? E aquela máquina de carregar felinos foi voltando…. ai, ai, ai… E aquele outro avião saindo…
- Esse vai pra Vila Mariana? (perguntei num só miado).
Rosnando, ele disse: É. Você não viu a placa?
Menei a cabeça, escondi o rabo. Sorri amarelinho e quase feliz.
O comboio com meia dúzia de gatos pingados se afastava mais do meu destino, a cidade cada vez mais pálida, “breuzadamente” falando.
O trajeto estranho e eu olhava de ponta de olho os outros gatos. Passado uns dez minutos, o motorista se depara com a rua bloqueada. O guarda de trânsito alega que ficou perigoso passar ali por causa de um acidente, interdição de pista e escuridão.
Santa Gataria…. O motorista se perde, entra em rua sem saída e se perde… Outros gatos passageiros começam a dizer o novo caminho (esse trajeto jamais será feito novamente, pois está além do acaso). No gira-gira ele entra na transversal de uma avenida repleta de carros, carregada de caminhões. Todos os gatinhos pensam e sussuram: Cuidado ao entrar. Uma guinada. C u i d a d o.
Ufa. Me dá um leitinho….
Vinte minutos depois passamos pelo mesmo local em que eu tinha pego o ônibus. Não era miragem, mas estava mais calmo afinal agora ia dar certo.
Claro que ele seguiu aquela reta que eu conhecia e assim fez um outro trajeto. Quando ele saiu da reta, dois gatos pingados, pardos, senhorais começaram a dar pitaco. Vira à direita, segue em frente, vai, vai. Sabe um saco de gatos? Eu estava naquele saco. O Motorista (gato com carteira de telhado profissional) e o cobrador querendo virar novamente à direita. E os dois gatunos lá atrás: Vai, vai, segue em frente que você vai sair na estação Ana Rosa. Nosso comboio, de um carro só, parecia desgovernado naquele lusco e fusco. O motorista inclinou o veículo duas vezes pra dobrar, e os dois do fundo gritaram, de novo: Vai, vai, em frente…
Desci miando em silêncio e pingolejando. Estava na Ana Rosa, pertinho do lar, do meu sofá vermelho e das almofadas de fuxico. Havia uma multidão de gatos penados, a maioria não sabia o que fazer. Não havia metrô, muito menos luz, nem leite pra tomar…
Caminhei até a parada atopetada de olhos arregalados. Consegui, feito sardinha, compartilhar um ônibus, esse bem mais iluminado do que o outro. Um gato de óculos recebia informações pelo celular e falava que a imprensa não estava dando notícias. Fiquei sabendo que todo o Estado de São Paulo estava às escuras. Lá vai o ônibus.
Trimmm. Minha gata ligou preocupada.
Eu, eu estou bem quase chegando em casa.
Então, te cuida, miau e um beijão.
Desço na Paulista agitada e penumbrosa.
Chego no prédio à luz de velas. Peço uma vela emprestada e começo a subida de vinte e dois andares. Por que eu estou tão pesado e fora de forma. Suar e suando, suarei em todas as conjugações. Lá pelo décimo terceiro sou o senhor Pingante, o cara mais suado das adjacências. Com os dedos cheios do sebo, dou uma respirada maior e sem querer a chama apaga. Agora sim estou no escuro total. Miauuuuuuuu! É tudo muito rápido.
Tento tatear e bater em alguma porta, uhmmmm. Melhor eu usar a luzinha do celular que estava no bolso da camisa.
Pinga, pinga, pingado, pingarei todas as escadas deste prédio. Lavei o corredor do último andar, lavei a entrada e o quarto do meu apartamento. Tirei a camisa e todo o entorno. Acendi a vela, novamente, e me assustei: O Príncipe Submarino encarnou em mim. Pensei que poderia sair nadando até o banheiro e tomar uma ducha, bem fria pra continuar no clima deste inesquecível dia nove de novembro. Como bom gato sai muito feliz (Felix) daquela corrente de água.
Olhei com doçura pra o sofazinho escarlate, espreguicei e….Meaauauuuuuuuuuu!!!!!!
Publicado por: Luiz F. Fagundes em: 5 05UTC Novembro 05UTC 2009
Por Luiz F. Fagundes
Acordei sorrindo, mas, acordei. O sonho acabou.
(Curitiba – 17 de abril de 2008)
Publicado por: Rodrigo A. Corrêa em: 28 28UTC Outubro 28UTC 2009
Por Rodrigo A. Correa
Em pensamento a palavra mais pornográfica que conheceu chamava-se concupiscência.
****
O Professor do Pudico
Sempre achou que faltava “N” e sobrava “S” em concupiscência.
- Mas será que ”Concunpicência” não ficaria mais estranho, menos sonora, ainda?
***
O Concupiscente Literário
Desejava as palavras como um orgasmo prolongado.
Comia e desgutava cada letrinha feito o mais saboroso manjar.
A voracidade acabou em um desértico blog.
SP Junho de 2009
Publicado por: Rodrigo A. Corrêa em: 28 28UTC Outubro 28UTC 2009
Por Rodrigo A. Corrêa
Alterego
Escrever é meu trabalho.
Ih, então você vai continuar desempregado!
Dois: Alterego e Alter ego
Eu gosto de estar juntinho. E eu sou descolado!
São Paulo, 17 de Maio de 2009.
Publicado por: Uhu! Quadrinhos por Luiz Fagundes em: 27 27UTC Outubro 27UTC 2009
Publicado por: Luiz F. Fagundes em: 26 26UTC Outubro 26UTC 2009
Por Luiz F. Fagundes
Mais uma tarde chuvosa na periferia de uma grande cidade. Céu cinzento, nuvens ameaçadoras e um vento que insistia em virar os guarda-chuvas, molhando os apressados trabalhadores que tentavam chegar em casa após mais um exaustivo dia de labuta. Os carros, parados nas grandes avenidas, pareciam modernas estátuas de ferro e vidro, com luzes amarelas para quem vem, vermelhas para quem vai.
A noite não foi muito diferente. Foi assim que testemunhou Seo Jeremias. Noventa anos de amargura e desalento. Uma desesperança crescente desde que retornou da Segunda Guerra Mundial, sem uma perna e com marcas profundas. Na pele e na alma. Mas tudo ganharia um novo sentindo naquela manhã. E os primeiros raios de Sol que rompiam as nuvens para bater em frente à janela de sua casa, aos poucos deixariam tudo mais claro.
Os operários que escalavam a enorme escada nunca foram vistos por aquelas bandas. Aliás, aquele muro permanecia praticamente branco há anos, não fossem algumas pichações, mais um tormento na vida do pobre Seo Jeremias. Os ponteiros do relógio estavam apressados como paulistanos, mas era impossível deixar aquela janela até saber que raio faziam aqueles homens em seus macacões azuis.
Ao final do dia, a resposta. Uma enorme letra ‘A’ era a solução que trazia ainda mais dúvidas. Afinal de contas, porque aqueles homens passar todo o dia apenas para desenhar no muro aquela nababesca letra. E com aquela interrogação Seo Jeremias finalmente foi dormir. A.
O dia amanhece e novamente os homens de azul aparecem. E logo lá estava o encucado velhinho na janela. Novamente um dia puxado de trabalho, trepados em escadas, verdadeiros artistas se equilibrando no ar. E aos poucos mais uma parte do mistério se revelaria. M. Sim, a letra ‘M’ aparecia majestosa ao lado de sua pioneira companheira. E as estrelas guardariam por algumas horas aquilo que ainda nada dizia: AM
Seo Jeremias se desesperava. Tentou chamar, em vão, os operários. Precisava de alguma resposta. Já não comia, não bebia e, a partir daquele dia, já não dormia mais. E aquelas duas letras gigantes atormentavam o seu ser. O que era aquilo se formando diante de seus olhos, tão grande e onipresente, tão misterioso e tão potente.
E as horas de espera por mais uma dica deixariam o relógio mais lento e a angústia com o tempo se tornaria uma paranóia. Não era possível. Porque depois de tanto anos ele deveria se curvar a um simples muro. Mas o sinal estava lá. E a letra ‘O’ que se formou naquela dia não lhe deixava mais dúvidas. Ele deveria ser apenas um servo, pois o muro era seu dono, ou melhor, seu AMO.
Mais um belo dia ensolarado na periferia. O céu azul e as flores abertas insistiam em se oferecer ao suave vento. Porém, muito fraco pelos dias de adoração, o fio de vida que ainda animava Seo Jeremias estava prestes a se romper. E ainda na maca, passando em frente ao muro, uma rápida passagem de olho deu um novo alento àquela alma perdida. Ele mal podia acreditar no que estava lendo. Era a esperança renascendo. A prova definitiva de um novo tempo. E com um último suspiro e um sorriso nos lábios, a última visão do solitário velhinho foram as letras dizendo: AMOR
Alguns dias se passaram após a partida de Seo Jeremias. Mas, os operários de azul continuavam a desenhar. Dia após dia deixavam mais uma letra. Feliz foi Seo Jeremias. O destino quis que ele deixasse a esperança sobreviver a seu último suspiro. Não precisava e não deveria ver mais nada. Não foi tarde seu encontro com a felicidade. Foi na hora que tinha que ser.
Para os vizinhos, pobre foi Seo Jeremias. Perdeu a festa que inaugurou o novo comércio da rua. Com balões, música, salgados e até bolo. Boca livre de dar gosto. E as letras garrafais, imponentes, convidavam a todos para resolver os problemas causados pelas esburacadas ruas da cidade em dias de chuva: AMORTECEDORES AQUI
(Escrito em maio de 2007)
Publicado por: Luiz F. Fagundes em: 20 20UTC Outubro 20UTC 2009
Por Luiz F. Fagundes
Cansado da rotina, entregou-se à loucura. Fez-se o mundo.
(escrito em algum renacimento de Fênix, em 2004)
Publicado por: Rodrigo A. Corrêa em: 19 19UTC Outubro 19UTC 2009
Por Rodrigo A. Corrêa
Aquele pombinho beija tão diferente que até o beija-flor fica embevecido.
E o jeito de se ‘apombar” no regaço de sua amada é por demais peculiar.
Ele é muito carinhoso e encanta a passarada.
Talvez o mais notável seja entender de tudo e não saber voar
(SP- 03/04/09 – sexta-feira 20h45)
Em homenagem ao meu amigo César
Publicado por: Luiz F. Fagundes em: 17 17UTC Outubro 17UTC 2009
Por Luiz F. Fagundes
Como caçula e filho homem e mimado da casa, eu deveria ser o menino birrento e o adolescente problema da família Fagundes. No entanto, minha avó paterna resolveu assumir esse papel dentro da cadeia familiar, sendo a causadora das maiores polêmicas que ameaçam a paz deste humilde lar. Porém, foi numa de suas sagazes teorias que parei para analisar um fenômeno que assola a imprensa e até os papos de botequins, fofoqueiras e taxistas: as “não-notícias”.
A capa e o personagem logo me chamariam a atenção. Ele, o incorrompível José Dirceu garantia que não abandonaria do governo. A mais conhecida e não tão confiável revista semanal do país prometia uma entrevista esclarecedora. O maior escândalo do primeiro ano de mandato de Lula mexia com a política e a economia do Brasil. Tudo poderia estar indo por água abaixo naquele momento.
Peguei a Veja sobre a estante e, antes de me acomodar no confortável sofá azul-marinho-roxo-desbotado de minha sala, recebo o alerta de minha avó: “Olha Felipe, essa não tem nada. Essa aqui é a boa. Está repleta de coisas. Lê essa aqui”, e tremulava a Contigo como uma ianque mostrando com orgulho sua bandeira em plena Guerra da Secessão.
Diante da insistência, não tive coragem de contar para ela que estava errada. Que o que julgava interessante não passava de futilidade. A Veja sim continha os assuntos de interesse realmente comprovado. O que era importante estava ali, na outra somente o mundo das celebridades do momento, o horóscopo, a novela e, segundo a manchete, Luma e seu bombeiro. Peguei as duas revistas. Comecei uma divertida brincadeira comigo mesmo. Transportar as notícias para o “mundo de Contigo” e vice-versa.
Capa: “José Dirceu arrependido (com sua toquinha de Bariloche)”, ou, “Luma fala a Veja: Não vou sair com o Bombeiro”. Há, recorde de vendas. Vamos para as novelas. Que tal “A Cor Vermelha do Pecado”? Capítulo de segunda: Diniz conta a Dirceu que vai para o Sul. Lula encontra Dirceu e manda que ele escolha entre os dois. Diniz tenta falar com Dirceu, mas este perde a calma quando ela fala mal de Preta (opa, do PT).
Aliás, esse capítulo me lembra outra novela. Mais uma não-notícia que invadiu a pauta das TVs, jornais, internet e revistas. Zeca Pagodinho contra a Nova Experimenta. “A Cor da Cevada”. Capítulo de segunda: Pagodinho conta a Schin que vai tomar no Sul. Brahma encontra Pagodinho e manda que ele escolha entre as duas. Schin tenta falar com Pagodinho que perde a calma quando ele fala mal da Brahma. Não existe fusão que entenda.
O fenômeno não é novo. Como esquecer a macaquinha Capitu, que invadiu minutos preciosos do horário nobre em pleno Jornal Nacional. Não se lembra? A peralta primata que atravessava um rio a nado para trair seu companheiro? Pois é, é provável que você não lembre. Esse fenômeno tem vida curta. As não-notícas mais resistentes raramente passam de 15 dias. Não sei se Capitu morreu na tragédia do zoológico de São Paulo, nem se deixou herdeiros. Aliás, é bom ir ao Programa do Ratinho para fazer um teste de DNA e saber qual macaquinho é o pai: o empresário ou o bombeiro.
Porém, a brincadeira acabou na página 68. Na 69 também. E por duas páginas mais. Quatro. Quatro páginas da Veja dedicadas à miss não-notícia, Luma de Oliveira. Eu me rendia. Eu era um reles mortal que vivia num mundo tortuoso, de corrupção, ganância, politicagem, mas que às vezes surpreendia com incríveis descobertas, atletas vitoriosos, pensamentos revolucionários. Veja só, estamos numa época superinteressante, vivendo num castelo de Caras ou em um mundo de Contigo. Ora, isto é uma vergonha? E só eu não percebi… Obrigado, vó.
(Publicado em abril de 2004, quando ainda morava em São Paulo, quando ainda tinha avó, e quando a Dilma ainda era o Zé)
Publicado por: Rodrigo A. Corrêa em: 15 15UTC Outubro 15UTC 2009
Certos problemas nas cidades brasileiras estão sendo resolvidos pelo próprio pessoal da periferia. As ações do poder púbico e de grandes empresas não conseguem mudar a situação caótica. Volta e meia nascem projetos interessantes, mas é pouco.Publicado por: Luiz F. Fagundes em: 13 13UTC Outubro 13UTC 2009
Por Luiz F. Fagundes
Juari andava cabisbaixo. Desde que sua amada Juliana o abandonara, a vida já não lhe fazia mais sentido. Pelo menos até aquela quinta-feira. Dia de compras para Dona Marta. Seios fartos, divorciada, lábios carnudos, enfim, mulher, mas mulher mesmo. E que mulher. Morava no apartamento de cima, mas nunca chamou a atenção de Juari. Sempre foi fiel e submisso. Mas, Juari agora estava só. Solitário e como um vulcão pronto para entrar em erupção. Marta acabara de entrar no elevador.
- Bom di…dia (que peitos!), belos melões, hein?
- O que?? Seu tarado!!
- Me refiro aos melões que estão no carrinho. Também são muito bonitos (Controle, Juari!).
- Me desculpe! Não sei onde estava com a cabeça. Bom, para reparar essa injustiça eu lhe convido para jantar comigo esta noite. E não aceito um ‘não’ como resposta!
- Claro, com prazer. Afinal, somos vizinhos há anos… (É hoje, Juari!)
- As oito?
- As oito (As nove, as dez, até o café da manhã..).
O coração de Juari pulsava como antes. Juari estava vivo novamente! E precisava caprichar. Passou em uma adega e pegou o vinho mais caro. Fez a barba, cortou o cabelo e colocou a roupa de domingo, que já estava esquecida num cantinho do armário, velada por um velho quarteto de naftalinas. Juari estava confiante. Comprou flores. Tocou a campanhia. Oito horas em ponto.
- Pois não?
- Me desculpe, acho toquei no apartamento errado.
Juari sabia que era o lugar certo. Mas, quem abriu era a pessoa errada. Peito atlético, braços fortes, olhos azuis. Munido de avental e facão, ainda segurava um dos ingredientes do jantar em sua mão. Juari respirou. Voltou a tocar.
- Err.. Boa Noite. Sou o Juari, vizinho do 62, fui convidado pela Dona Marta. Belo pepino, hein?
- Ah sim, entre. Amooor, o vizinho já está aqui.
Flores em uma mão, vinho na outra, Juari era o retrato da decepção. Pobre Juari. Que noite o aguardava. Que dor no coração. Não viu o torneado amante servindo-se de uma saudável salada. Nem viu também quando Marta entrou e trouxe o prato da noite. Macarrão. À bolonhesa.
Ah, quanta alegria no rosto daquele casal. E Juari mal tinha força para levar o garfo à boca. E conversaram sobre música, cinema, economia, política… O casal. Juari permanecia calado. Em outro mundo.
- E sua esposa, não veio porquê?
- Sou solteiro. (Queria comer ela também, garanhão?)
- Ah, que pena, é tão bom ter alguém ao nosso lado.
- Ô… (Ele está me provocando…)
Mas o pior estava por vir. O convite de Marta foi a sentença.
- Quer melão?
Juari perdeu o controle. Com um facão na mão, mutilou o noivo de Marta e partiu para cima de sua musa. Queria ela naquele momento e seria à força. Ninguém poderia impedir seu momento de realização.
- Quero melão! Os dois! Quero você, à bolonhesa!
Mas, Juari não era assim, e tudo não passou de uma nuvem de pensamentos maquiavélicos. Agradeceu o jantar e deixou os noivos em seu ninho de amor. Toda quinta-feira Juari vai à quitanda. Juari nunca esquece de comprar melões. Pepino nunca mais.
(Essa crônica, ou conto, sei lá, escrevi em maio de 2003 e deveria entrar em meu projeto experimental na época, um site de culinária chamado Mistoquente.net. Mas, não tinha nada a ver e agora volto a publicá-la em um blog).
Publicado por: Rodrigo A. Corrêa em: 13 13UTC Outubro 13UTC 2009
Por Rodrigo. A Correa
Duas vendedoras, senhoras, com cabelos pintados de caju, trocavam figurinhas. Ao ser interpelada pelo chefe, a de cabelo mais curto não seguiu as ordens do homem. Ele, que ao falar, tem o hábito de colocar a mão nos ombros das funcionárias. E a pergunta: Que loja e andar estou?
Falsa Jóia
O sorriso era lindo mas falso. O batom brilhante deixava os lábios ainda mais verdadeiros e apetitosos. Com o tempo ela deixou de enganar seu amante.
Circulando
O erotismo e falação das pré-adolescentes irritava o tiozinho, mesmo assim, ele não deixava de acompanhar aquelas fanfarrices.Sobrinhas atrevidas. A magrinha passou tentando requebrar e chamou atenção de um garotinho loiro e nada mais aconteceu
Que número você calça?
34 – 35. E você?
35 – 36.
Veja este: chocante!
E aqui: Amei!
E sua mãe calça quanto?
40.
Ih, vou demorar para chegar lá. Bom, não quero chegar…
Porto Alegre, 06/07/09
Publicado por: Luiz F. Fagundes em: 11 11UTC Outubro 11UTC 2009
Por Luiz F. Fagundes
Silêncio durante o filme é algo essencial. Claro que uma determinada cena ou quando algo que seja comum entre pessoas que estejam assistindo juntos aparece pode ocasionar sinais, cutucões e olhares ‘você viu?’. Isso é muito válido. Porém, numa terça-feira à tarde, o clube dos corações solitários leva seus sócios para as poltronas. E vinte minutos de luzes acesas podem ser enigmáticos. Paranóicos.
Silêncio. Um ranger de cadeira indica que alguém ali na primeira fileira tenta se ajeitar. Nada muito brusco. Um ranger seco e rápido. Apenas um cabelo crespo e uma calvície eminente. Os que estão atrás, que nem sei quantos são, não têm nem forma. Os que estão pela frente apenas uma coleção digna de um índio fanático por escalpes. Ao meu lado um outro som quebra a catatonia coletiva.
Um suspiro. Uma senhora com três, talvez quatro ou cinco pacotes. Cinema de shopping. Janeiro é mês de liquidação. Consumir cansa. Ser consumido também. Ainda faltam quinze minutos e já cruzei a perna direita sobre a esquerda (fazendo trocas a cada 30 minutos ou ao menor sinal de formigamento). Mais duas pessoas entram. Cada uma escolhe uma fileira. “Com licença”, ouço. “Obrigado”, imagino ouvir. “‘Magina”, respondo com a certeza de que não fui ouvido. É o medo de romper a lei do silêncio. Ali são todos invisíveis e um mínimo descuido pode fazer você ser notado.
Tosse. Uma embalagem aberta. Opa! Seria uma bala? Morango? Hortelã? Uma pastilha para garganta? É possível. Você já percebeu como tem ente doente nessa época do ano? Febre, dor de garganta, coriza… Lembrei que eu ainda estava saudável. Mais uma tosse. Acho que foi a mulher das sacolas. E eu ali, tão vulnerável. Confesso que fiquei até sem ar. Acho que foi uma defesa. Defesa idiota, ao invés de resfriado eu ia morrer com uma parada respiratória.
Silêncio. Bateu uma saudade. Mas eu sabia o porquê de estar ali tão só naquele momento. Meu planetinha anda tão complicado. “Ainda não são três e vinte?”, indagou uma figura pitoresca. “Ainda não”, de pronto, mas com um ar de reprovação responde a mulher das sacolas. “Mas já é quase”, violava o silêncio outra vez com sua voz grave, mas levemente adocicada. “Sim, já é quase”, devolvia com um tom de fúria.
Desligam-se os celulares. Um atrás do outro. “Mas, afinal que horas são?”, o despudorado atrevia-se a prevaricar novamente. “Contenha-se senhor”, esbravejou (quase em silêncio) a senhora, absolutamente envergonhada por ter sido notada e ter cometido tamanha violação de conduta. Eram três e dezenove. Um minuto de silêncio. Já não sabia se esperava por um filme ou por um morto. Apagam-se as luzes. Agora ia começar. Para mim já tinha terminado. Só queria voltar para meu planetinha.
(escrito em um momento de paranóia em 2004)
Publicado por: Luiz F. Fagundes em: 9 09UTC Outubro 09UTC 2009
O que eu acho das Olimpíadas 2016 no Rio. Como opiniões contrárias não são aceitas, prefiro apenas ilustrar este post.

Empreiteiras vibrando e o povão tomando
Bom, são eles que estão dizendo!
Publicado por: Luiz F. Fagundes em: 8 08UTC Outubro 08UTC 2009
Por Luiz F. Fagundes
E o remédio que me cura é de uso contínuo: você.
São Paulo – 09/06/2004
Publicado por: Luiz F. Fagundes em: 8 08UTC Outubro 08UTC 2009
Por Luiz F. Fagundes
Acabou. Apague as luzes ao sair.
Curitiba – 11/06/2004
Publicado por: Luiz F. Fagundes em: 8 08UTC Outubro 08UTC 2009
Por Luiz F. Fagundes
Caminhou um mês sem parar para encontrar si mesmo
São Paulo – 17/06/2004
Publicado por: Luiz F. Fagundes em: 8 08UTC Outubro 08UTC 2009
Por Luiz F. Fagundes
Finalmente foi embora. É tarde demais.
São Bernardo do Campo – 18/06/2002
Publicado por: Luiz F. Fagundes em: 8 08UTC Outubro 08UTC 2009
Por Luiz F. Fagundes
Penso: “Até logo”. Existo.
São Paulo – 22/06/2004
Publicado por: Uhu! Quadrinhos por Luiz Fagundes em: 24 24UTC Setembro 24UTC 2009
Por Luiz F. Fagundes
Desconfiado da própria sombra,
apagou a luz a sangue frio
(SP, 2004)
O desconfiado demais acaba sozinho. O paranóico, louco. Mas, hoje em dia, não me parece loucura se esconder na escuridão.
P.S: Espero um dia poder desenhar melhor do que eu uso o Photoshop. Espero um dia poder usar o Photoshop melhor do que eu escrevo. Mas também espero poder um dia escrever melhor do que eu penso.
Publicado por: Rodrigo A. Corrêa em: 24 24UTC Setembro 24UTC 2009
Publicado por: Luiz F. Fagundes em: 20 20UTC Setembro 20UTC 2009
Por Luiz F. Fagundes
“As pessoas admiravam Ian pelas coisas que estavam matando-o”, Deborah Curtis, viúva de Ian Curtis.
“Quem estiver com depressão quando ouvir este disco, vai se atirar de uma janela”, resenha no semanário inglês Sounds sobre o álbum Unknown Pleasures.
Como boa parte das bandas inglesas da segunda metade da década de 70, o Joy Division surgiu com a explosão do movimento punk. E foi exatamente acompanhando a turnê dos Sex Pistols, em Manchester, no ano de 1976, que três amigos de infância, Bernard Sumner, Peter Hook e Terry Mason resolvem montar o grupo. Ian Curtis, outro que sempre estava presente nos shows de punk-rock com sua jaqueta escrito “ódio”, se juntou ao trio quando respondeu a um anúncio procurando por um vocalista. O primeiro nome surgiu influenciado por uma música de David Bowie, Warsaw. Em maio de 1977 a primeira apresentação, com Tony Tabac na bateria. Alguns meses depois Stephen Morris, candidato único ao cargo, tomaria seu lugar.
Após um show de despedida do Electric Circus, quando abriram para o Buzzcocks, uma coletânea com as bandas que se apresentaram foi lançada. A música “At A Latter Date” foi incluída, mas ao invés da canção, o que chamou a atenção foi o grito de Bernard na introdução: “Todos vocês esqueceram Rudolf Hess (ex-carrasco nazista)!”. Começava aí uma série de acusações de nazismo.
O EP An Ideal For Living [77], lançado de forma independente, trazia quatro músicas e seria o único lançado sob o nome Warsaw, já que havia uma banda de heavy-metal quase homônimo: Warsaw Pakt. Obcecado por tudo que fosse alemão, Curtis escolhe o nome Joy Division (alojamentos onde as mulheres judias tinham que se prostituir), extraído do livro The House Of Dolls.
O lançamento do primeiro álbum, Unknown Pleasures [79], é adiado algumas vezes. O grupo não ficava satisfeito com os resultados das sessões. Essas gravações são encontradas em discos piratas sob o título Warsaw. Enquanto isso entra em sociedade com a gravadora Factory Records e entra no EP A Factory Sample com duas músicas: “Digital” e “Glass”. Contrata então o DJ Martin Hannet para produzir o grupo. Ele coloca a bateria e o baixo à frente e acrescenta diversos efeitos. As letras de Ian Curtis mostram a expressão do desespero e angústia humana. A crítica inglesa não poupa elogios a “Shadowplay“, “Disorder” e “She´s Lost Control“, além do single “Transmission”.
Porém, o grande destaque é a banda ao vivo. Os shows começam a se tornar lendários, com todos imersos em sombras, enquanto Curtis dançava freneticamente. Epilético, repetia o movimento de seus ataques, e às vezes tinha ataques reais, motivo pelo qual não podiam ter luzes estroboscópicas no palco. O público seguia o grupo onde ele fosse, sempre vestido com os trajes da Alemanha da década e 40.
Excursionam pela Inglaterra abrindo para os Buzzcocks e depois uma bem sucedida turnê européia. Em março de 1980 é lançado um compacto com as músicas “Atmosphere” e “Dead Souls” pela gravadora francesa Sordide Sentimental. Entram em estúdio para gravar o segundo álbum, Closer [80], novamente produzido por Martin Hannett, com destaque para o uso de teclados. Para a gravação dos vocais e da bateria foi construída uma abóbada de estuque, que reproduzia a ressonância de uma capela, perceptível em faixas como “A Means To An End” e “Decades“.
Os shows debilitam ainda mais o estado de saúde do vocalista. Em um show em Londres, Curtis teve um ataque epiléptico e acabou caindo em cima da bateria, para delírio da platéia. Uma nova guitarrista, Gillian Gilbert, apresenta-se com a banda em alguns shows. Uma turnê americana estava prestes a se iniciar, quando acontece a tragédia. No dia 18 de maio de 1980, horas depois de discutir com a mulher, Ian Curtis perdeu o controle pela última vez. Ouvindo o álbum The Idiot, de Iggy Pop, ele se enforca.
O compacto “Love Will Tear Us Apart“ foi lançado no mesmo mês, colocando o grupo pela primeira vez no Top 20 britânico. Closer é lançado e atinge o número 6 na parada britânica, com destaque para “Isolation”, “Heart And Soul” e “Decades“. Still [81] tem algumas sobras de estúdio e o último concerto do grupo.
Bernard Sumner, Peter Hook, Stephen Morris e Gillian Gilbert permanecem juntos e formam uma das bandas mais influentes da década de 80, o New Order. Essa, no entanto, é outra história. Já a vida (e morte) de Ian Curtis continuou sendo cultuada por décadas, chegando aos cinemas em 2007 com Control , de Anton Corbijn.
Discografia:
1979 – Unknown Pleasures (Qwest)
1980 – Closer (Qwest)
1981 – Still (Qwest)
1988 – Substance (Qwest) (146º/The Billboard 200)
1995 – Permanent (Qwest/Warner)
1999 – Preston Warehouse (Factory)
2000 – Complete BBC Recordings (Strange Fruit)
2001 – Les Bains Douches (Factory)
(texto escrito em 2003, em um projeto de conclusão do curso de Jornalismo, um guia de bandas dos anos 80 abandoando pelo grupo)
Publicado por: Luiz F. Fagundes em: 8 08UTC Setembro 08UTC 2009
Por Luiz F.Fagundes
Em sua última entrevista no programa Jô Soares 11 e Meia, em 1989, Raul Seixas, ou só o pó que sobrou dele, afirmou categoricamente – e alcoolicamente – que o rock n’ roll morreu em 1959. Raulzito falava das origens, do mais primitivo e puro do estilo e, pensando por este lado, estava certo. Mas acredito que o rock n’roll sobreviveu a essa data, me manifestou de diversas formas, se modernizou, ganhou elementos, mas sempre manteve o essencial de sua alma: a atitude.
Ganhou toques de popular, clássico e abusou do experimentalismo com os Beatles. Ganhou corpo para influenciar gerações com os Rolling Stones. Poesia à base de LSD com Doors, filosofia progressiva (seja lá o que isso for) com Pink Floyd, gritos agudos com o Led Zeppelin, destruição de instrumentos, cérebros e juventude com o Who. Foi ao inferno com Black Sabbath, ficou imundo com os Sex Pistols, cru e dinâmico com Ramones. Ficou pirotécnico e se tornou uma ópera com Queen. Ganhou trejeitos e se tornou meloso com os Smiths, obscuro com o Cure. Morreu e ressuscitou de luto com o AC/DC. Passou da voz cavernosa de Ian Curtis e toda depressão de seu Joy Division, para os arranjos irresistíveis do New Order. Se tornou político e preocupado com o mundo com o U2. Deixou o cabelo crescer e com permanentes fez o Bon Jovi chegar até à URSS. Entrou na casa de todos por novelas, camisetas e polêmicas com o Guns n’ Roses. Entrou pelos anos 90 de camisa quadriculada e uma dor de estômago crônica com o Nirvana.
Passei por todas essas fases, citando apenas os ícones, é lógico, para chegar à história de hoje. Em 1992 um grupo com um toque grunge, mas ao mesmo tempo com alguma coisa nova, um ar fresco, começou a despontar meteoricamente no cenário musical. O Blind Melon, ajudado pelo empurrãozinho de Axl Rose, que convidou o vocalista e amigo de infância na pequena Lafayette, Shannon Hoon, a participar das gravações de ‘Use Your Illusion’ (91) e do clip de ‘Don’t Cry’, passou a abrir os shows de grandes bandas a rodar o mundo.
Na mídia, após o lançamento do álbum ’Blind Melon’ (92), o clip de ‘No Rain’ (conhecido pela geração MTV por ‘o clip da abelhinha’), lançado em 1993, simplesmente explodiu (inclusive aqui no Brasil). O single chegou aos 3º lugar na Billboard e vendeu 2 milhões de cópias instantaneamente. No ano seguinte, em um show histórico na versão anos 90 de Woodstock, a banda se consagrou com uma apresentação insana, com Shannon vestido de mulher com direito a saia e presilhas no cabelo.
Com um vocalista idolatrado pelas mulheres, com uma voz ímpar, riffs de baixo sensacionais, arranjos originais, o Blind Melon teria tudo para ser a cara do novo rock n’roll e dos próprios anos 90. A velha atitude, alma do rock, estava presente. Isso se confirmaria com o segundo disco do grupo, ‘Soup’ (95), um álbum complexo que entraria na mídia com o single ‘Toes Across the Floor’ (com mais um clip de sucesso na MTV). Novo álbum lançado, o próximo destino era uma turnê para divulgar o trabalho.
Com um visual novo, abandonando a mistura riponga-grunge, Shannon apareceu remoçado, cabelo cortado, pose de galã. Sua performance contagiante no palco, que contribuía para o sucesso, ganhava em espontaneidade, mas deixava no ar se era movida a algo mais, já que o voalist atinha problemas com drogas desde a adolescência. Na vida pessoal, sua mulher esperava a primeira filha do casal e os dias de loucura em Los Angeles pareciam ter chegado ao fim com o retorno para Lafayette.
Em 12 de setembro de 1995 a banda fez um especial para a televisão e Shannon, mesmo mostrando a competência de sempre, já se mostrava alterado. Durante a divulgação do disco na cidade de Nova Orleans, no dia 21 de outubro de 1995, Shannon Hoon foi encontrado morto após uma overdose pelo uso de cocaína no ônibus da banda. Por apenas um mês não entrou para o Grupo dos 27, lendas do rock que foram para o saco aos 27 anos: Jim Morrison, Jimi Hendrix, Janis Jopin, Brian Jones e Kurt Cobain.
Desta vez, no entanto, mais do que um ídolo ou um rockstar, algo mais foi para o túmulo. A segunda metade da década foi marcada pela ascensão do CD, das tecnologias de gravação, da musica estritamente comercial. Novas bandas apreciam indiscriminadamente em garagens, em estúdios e até mesmo na recém-popularizada internet. Antigos dinossauros continuavam a rugir, mas sem a mesma vitalidade. Alguns se tornaram cópias de si mesmo, confundindo estilo próprio com repetição, incluindo todos os sobreviventes do grupo que levou o rock adiante e que citei no começo do texto.
Bons grupos apareceram e explodiram, é verdade. Todos competentes e fazendo uma boa releitura do velho rock n’roll. Oasis, Cramberries e por aí vai. Outros se reinventaram, como o Red Hot Chilli Pepers. Surgiram despretensiosamente, como o Foo Fighters. Vestiram uma roupa punk, mas bem mais limpinha, como Green Day e Offspring. Mas a essência, a VERDADEIRA atitude rock n’roll na veia, essa ficou para trás. Entrou o novo milênio e a situação piorou. Indies, emos, inclassificáveis, todos de forma criminosa tentando se apossar do cadáver do rock. Música pobre de inspiração, depressiva a meus ouvidos, pretensiosa para os intelectuais. Dinossauros, agora dos anos 60, 70, 80 e 90 tentando mendigar espaço. Até mesmo o Blind Melon tentando uma nova encarnação, mas sem sucesso. Fatos que assinam a certidão de óbito: o rock morreu em 1995.
(Mais sobre a ascensão e queda e Shannon Hoon e do Blind Melon no livro “A Devil on One Shoulder and an Angel on the Other”, de de Greg Prato. Não li, mas deu para dar uma fuçada em dois capítulos no site www.lulu.com)
Publicado por: Rodrigo A. Corrêa em: 30 30UTC Agosto 30UTC 2009
Publicado por: Luiz F. Fagundes em: 25 25UTC Agosto 25UTC 2009
Acordou e viu Belchior metamorfosiado em Sarney. E vice-versa. Acordou novamente.
Atualizado 28/ago – Aí tudo se complica… http://diversao.terra.com.br/gente/noticias/0,,OI3947211-EI13419,00-Foto+mostra+Belchior+com+Jose+Sarney+no+inicio+do+ano.html