Publicado por: Rodrigo A. Corrêa em: 12 12UTC julho 12UTC 2010
O polvo não é fácil… Parou o ataque holandês… 8 acertos, 1 para cada tentáculo
Essa do polvo Paul é a história mais genial dos últimos tempos. Que mané caso Bruno!
O Polvo Paul é Dilma na eleição. Ele é o melhor amigo do Lula (Luiz)
Publicado por: Rodrigo A. Corrêa em: 30 30UTC junho 30UTC 2010
Entrevista com Luís Alberto de Abreu
Por Rodrigo A. Corrêa
Apaixonado por dirigir. Procura novos caminhos. O lado curioso e inusitado em geral lhe acrescenta nuances, outros detalhes e é mais divertido. Seus personagens tem essa liberdade de andarilho que ajudam-no a fugir das mesmas fórmulas, do que já escreveu. O olhar atento busca sempre o ser humano. Gosta de escrever em colaboração, com grupos. É um professor que transforma seus ouvintes e que gosta de aprender com os seus alunos.
Ministrou um curso de três dias, no SESI-SP sociocultural, no final de março: Construção de Personagens Cômicos, a partir de Arquétipos- Os elementos fundamentais da comédia. Muito além da seriedade e pequena timidez, transparece amor e capricho no que faz. É um instigante criador. Adora ler, contar e ouvir histórias.
Um dos seus segredos, é simples como ele, o mundo está repleto de histórias em casa, no trem, no ônibus, no bar, no caminho, em qualquer lugar… “O Teatro é oralidade. A gente escreve o que ouve”, diz. Sábio no ouvir, perspicaz no olhar, vai decifrando os outros, os eus. Ele garimpa palavras, frases, imagens. É um pesquisador nato. Quando fica comovido, emocionado com alguma imagem, ali nasce algo que depois se traduz em um enredo, uma peça, um filme, um livro. Já escreveu mais de 60 textos. É um sobrevivente! A jornada profissional do dramaturgo começou em 1980 com Foi Bom, Meu Bem?
É preciso conhecê-lo mais e melhor. Adaptou Hoje é Dia de Maria, minissérie da Globo. Crítico, rude, terno e comovente. É inventivo, divertido e artesanal tecendo a vida em cada estrada, faz o trajeto da primazia, eis Luís Alberto de Abreu.
Você queria drama e corrompeu-se pela comédia. De onde vem sua paixão pelo cômico?
Não sei, talvez tenha vindo da minha própria formação. Eu me formei… a minha família é mineira, eles não são muito cômicos, mas eu nasci (1952) aqui em São Bernardo do Campo e numa época eu convivi muito com nordestino, muito, e eles são muito engraçados e, depois que eu vim conhecer o nordeste, as pessoas, tal, eles tem um humor muito grande. Eu acho que fui muito influenciado por isso. Eu acho que tem o lado mineiro que é o lado mais sério, mais religioso. E a gente tem o mineiro, a gente é o nordestino que é o humor medieval, humor de praça, humor de festa. Acho que vem daí meu gosto pelo humor. Embora eu faça também e goste muito de trabalhar o drama, mas o humor pra mim é muito divertido, muito prazeroso.
Você fez uma peça através de uma imagem. Como foi?
Eu trabalho fundamentalmente a partir de imagem. A comunicação se dá a partir de imagens. Mesmo que a gente invente, sei lá, por exemplo: a Teoria da Relatividade vai ter que transformar em imagens pra comunicar. A imagem é aquilo que comunica. Antes de começar uma peça eu preciso saber que imagem me toca. Então, se existe uma imagem que me toca imagino que ali esteja querendo ser parida uma história. Então, prefiro sempre uma imagem tocante: ou risonha ou dramática ou trágica, mas essa imagem humana, tocante, eu aproveito essa imagem pra desenvolver meu texto a partir daí. Às vezes vem de uma idéia, quero trabalhar com um tema determinado, imediatamente eu vou procurar uma imagem que possa corresponder a esse tema, a essa ideia e a partir daí eu começo meu trabalho de criação.
E sempre assim o seu processo de criação?
Todas as peças, de certa maneira, são assim. Eu procuro sempre uma imagem. Quando eu escrevi Guerra Santa, por exemplo, é uma Divina Comédia que se passa aqui no mundo mesmo, contemporânea. A imagem que me veio era um descontrole de um sujeito físico que o braço dele se descontrolava, embora ele tentasse controlar. Foi essa desagregação que me veio e a partir disso que eu criei o personagem Dante, um revolucionário, um guerrilheiro no final da década 70 e começo de 80. Ele se nega a incorporar ao sistema, se torna um bandido matando gente, mas não um bandido, ele tem um ódio muito grande contra o sistema, contra a injustiça e ele continua nisso. Foi uma coisa meio Sendero Luminoso. Ele continuava revolucionário embora numa época em que a revolução talvez não fizesse tanto sentido. Nisso ele encontra um antigo mentor dele, um professor de faculdade, um filósofo que se chamava Virgílio e sequestra esse cara e tem a Beatriz, uma senhora já madura, estéril. Eles fazem uma peregrinação pela cidade até que discutindo essas questões todas e no final das contas o Dante mata o Virgílio. Ele mata o mito, o mestre dele. Dante perdeu o controle.
A hybris dele estava na guerra, na luta, até que ele perdeu “o braço” que já comandava o próprio ser dele, então ele tinha assassinar, ele assassinava. Assassinou tanto Dante quanto Beatriz. Numa inversão total da Divina Comédia num inferno muito mais terrível. Então vem uma imagem que eu sinto esquisita e tenho que processar, ou seja, a imagem do sonho eu tenho que processar. Às vezes uma imagem cômica, e já vou ver o personagem e começo a investigar esse personagem e a peça ou o texto começa a nascer disso.
Quais os elementos que estruturam ou como dá comédia?
Olha a comédia se dá de inúmeras formas. Eu sempre digo que o gênero dramático tem um padrão referencial e essa referência a gente tem escrito e pensado que é a poética. Esse é o padrão referencial do gênero sério que seria a tragédia, o próprio drama e o melodrama. Situação gênero sério que fala sobre sofrimento humano.
Tudo que foge desse padrão necessariamente dá em comédia. Uma característica fundamental da comédia é a hipérbole. Tudo que for exagerado: a seriedade e a inteligência exageradas, tudo que for exagerado gera riso. Algumas pessoas pensaram muito sobre isso. (Henri) Bergson coloca como elemento da comédia aquilo que foge ao normal, aquela imprevisibilidade do raciocínio, a repetição gera comedia.
A comédia se faz fundamentalmente pelo personagem. É o caráter que determina a comédia. A gente tem na própria poética que o mito, o enredo é a alma da tragédia. Ou seja, o gênero sério tem que ter um enredo muito bem elaborado. A comédia não precisa, embora algumas tenham enredos bem elaborados. Ela só precisa de um tipo, de um caráter tolo, um caráter defeituoso, um defeito físico ou moral pra gerar a comédia. Então, tudo que foge do padrão clássico gera comédia. Naturalmente, os sujeitos gordos e muito magros são despadronizados e geram risos. Isso é muito interessante, o (Mikhail) Bakhtin trabalhou muito em cima disso. O gordo gera riso porque ele representa a fartura. A figura dele representa essa fartura que significa o afastamento da morte. Viveria muito porque come muito. Então, o gordo, por exemplo, é cômico. O Bakhtin faz uma topologia do riso e coloca-o nas partes baixas e qualquer imagem ou mecanismo das partes baixas, gera riso. Se tiver hipérbole vai gerar o riso.
A comédia está muito ligada à própria ideia de natureza, enquanto a tragédia e o drama estão ligados a idéia do homem, da construção humana, a comédia está ligada a destruição e a regeneração, ao ciclo, ela está muito mais ligada a isso. Tudo aquilo que possa representar vida, prazer: é comédia. Se colocarmos o elemento da própria natureza, que é hipérbole, ou seja, o exagero, e a natureza é sempre exagerada em tudo, então nós temos a comédia. O sujeito que tem uma orelha enorme, mas uma só, quando mais enorme ela for, percebe, a tendência disso é gerar comédia porque está fora de padrão e existe uma hipérbole aí; e uma característica fundamental da comédia é a própria ideia desses ciclos da natureza que não tem consequência, então ele morre e renasce novamente. Nada tem consequência. Ele apanha, a gente ri e ele continua vivo, continua fazendo a mesma coisa fez, ou seja, apanhar de novo.
Existem alguns arquétipos que indicam a comédia. O arquétipo do tolo, daquele que é inconstante, daquele que tem manias, que indica a ideia do cômico. A criança até três anos, por exemplo. Porque o que nos faz rir é a ausência do medo, o destemor. O riso brinca com a morte, com o militar, brinca com o chefe, brinca com o sagrado, brinca com tudo, não existe o medo no universo do riso, isso é um dado que é muito significativo. Então sempre que houver esse tipo de relação onde não existe consequência, isso vai gerar riso. A comédia é inconseqüente, por definição ela é inconsequente. O que é o fundamental e o Bakhtin faz isso, ela não é inconseqüente à toa nem destrói à toa, ela destrói sim e é feita pra destruir, mas destrói pra ser reconstruída porque a comédia necessariamente é cíclica. O Bakhtin faz uma análise e uma crítica muito grande em cima do humor romântico, o humor burguês que se desenvolveu nos séculos XVIII e XIX, que é um humor apenas rebaixador.
Na comédia ela rebaixa sim, ela cria uma horizontalidade entre os seres humanos.
Ninguém vale nada nem papa nem general nem presidente nem santo nenhum vale nada, todo mundo é humano. Vale tanto o santo quanto vale o miserável. Então, ela degrada tudo, todos e qualquer instituição mesmo, não existe sacralidade. Ela degrada, mas para ser reconstruída nesse grande ciclo.
O cômico é apropriado pelo sistema, pelo status quo?
O status quo não pertence ao cômico. O cômico é esse movimento constante. E se estabelecer um status ali ele quebra, ele derruba.
Mas alguns elementos do cômico são apropriados. É isso que fala o Bakhtin. Tinha uma comédia que era feita em cima dos defeitos de classe. Se ria, por exemplo, dos pobres, dos empregados, enquanto se preservava a classe dominante, a nobreza. Molière era censuradíssimo, o rei gostava muito das comédias, mas era censurado porque ele não podia mexer com tudo. Então muitas das peças do Molière e, principalmente, depois dele eram peças domesticadas: era o olhar cômico burguês sobre o mundo e até determinado ponto. E isso o Bakhtin afirma que é uma limitação da comédia. A comédia derruba mesmo. E a comédia veio ao mundo a partir do movimento, do ciclo de destruição e construção e eu concordo. Ela horizontaliza tudo, não existe sagrado e ele diz mais, não é que a comédia deteste o sagrado, não, ela inclui o sagrado dentro da visão risonha de mundo. Ele analisa a época medieval no famoso livro: Cultura, Popular na Idade Média e na Renascença e fala que dentro da visão cômica medieval cabia o sagrado e este era respeitado pelas pessoas, seja o sagrado religioso cristão seja o sagrado pagão, eles respeitavam muito. Mas isso estava imerso dentro de uma visão cômica. Como eles tinham o sagrado eles tinham o profano que quebrava o sagrado. Respeitavam o sagrado e ao mesmo tempo destruíam o sagrado, isso é a base da comédia. Aquilo que já passou do tempo, aquilo que não tem sentido, aquela construção moral, comportamental, que não tem mais sentido, ah isso é prato cheio para a comedia e ela destrói mesmo para ser recriada outra.
A poesia cabe dentro da comédia?
Nossa, cabe sim. Eu fiz um projeto chamado Comédia Popular Brasileira. Foi uma pesquisa que eu fiz com a Fraternal Cia. de Artes e Malas-Artes, com direção do Ednaldo Freire que foi processo de pesquisa longo. Ficamos juntos durante 12 anos. Escrevi 14 peças e fizemos14 encenações. A Gente começa com os títulos da Comédia Dell`Arte e escreve quatro peças e depois entra nos heróis da Cultura Universal. Depois entra nos Autos Populares que são ibéricos e a seguir encaminha para algo mais Pirandelliano, que reflete um pouco essa contemporaneidade de fragmentação, inclusive fragmentação do próprio sistema de produção teatral. Então, surge diretor questionando personagem, autor, essa bagunça toda, essa fragmentação, que aconteceu no mundo e aconteceu no teatro também.
A primeira peça que foi O Parturião e a segunda O Anel de Malagão que eram dentro dessa nacionalização dos personagens dos tipos da Comédia Dell`Arte, do século XV e XVI. E procurávamos na nossa cultura brasileira, os tipos correspondentes.
Lembro que a segunda peça era muito forte e uma comédia muito corrosiva, talvez seja a que eu melhor trabalhei o texto, um texto poético mesmo. Vocês conhecem Molière. Molière trabalhava uma qualidade poética os textos dele que é impressionante. O próprio Gil Vicente, da nossa produção, quando a gente escreveu os Autos, ele apresentou um saber poético enorme.
O Anel de Malagão era uma comédia muito farsesca. Tinha uma violência muito farsesca e aí comecei a trabalhar poesia, inclusive, como contraponto.
Cabe o que você quiser na comédia. Segundo Bakhtin, a comedia é uma visão sistêmica, é uma visão de mundo que é abarcado por esse grande ciclo de morte e renascimento, de degradação e regeneração: é isso a vida.
Por isso a metáfora da comédia é a própria natureza.
Tragédia x Comédia?
Tragédia é um padrão importante. Os gêneros sérios eles tratam da construção da sociedade, da construção humana muita profunda, uma construção arquetípica, a construção das emoções, o melodrama trabalha muito isso: aquisição das emoções. Os gêneros sérios têm um padrão na construção e que foi determinado por Aristóteles e tem validade até hoje que é a unidade de ação. Qualquer ação que aconteça está relacionada com a linha principal daquela peça, com a trajetória do protagonista. A comédia não. Ela foge disso. Despadroniza. Muitas vezes tem vários protagonistas. A comédia é complementar a tragédia porque a função primeira, o impulso primeiro dela é destruir. Onde a comédia fez tabula rasa das instituições, dos costumes, de tudo, acabou com tudo, aí vem a tragédia, os gêneros sérios construindo, construiu. Está ótimo? Ok? Aí vem a comédia dizendo vamos destruir tudo de novo, ah, ah. Quer dizer é uma brincadeira constante.
São complementares e, às vezes, a comédia inclui, dentro de si, o próprio drama. Nós temos, por exemplo, a tragicomédia que é isso. Temos Dom Quixote de La Mancha, do Cervantes, que é exatamente isso, que é dentro da visão cômica do riso cabe também a tragédia. A trajetória de Dom Quixote é duríssima, a gente ri muito, mas se emociona com a trajetória daquele velho, que é um doido, que é um maluco, que de repente que se percebe que não é tão maluco, não é tão babaca assim, que tem um sentido humano aquela procura dele. Aquelas viagens, aquelas saídas, aquele amor. É utópico aquele amor, mas existe, Dom Quixote acredita e vive aquele amor. Então isso nos ensina, isso é construtor dentro de um personagem cômico, percebe?
Então os gêneros são complementares, e não é como no Grego. No Grego, os gêneros eram muito bem separados ou era comédia ou era tragédia, bem separados, eles não se misturavam. O Shakespeare foi acusado pelos neo-classicistas franceses como um bárbaro porque ele misturou comédia dentro de um drama e ele fez isso muito bem.
É bom que a comédia se misture com tudo porque a apreensão do mundo é a união de todas essas coisas. A visão do mundo não só trágica nem só cômica, as duas visões convivem e são complementares, qual é o problema? Por que temos que ter uma visão absolutamente trágica, séria da vida?
Tudo bem no século XIX, o ceticismo aquela visão do homem sem sentido e no século XX, seguinte ainda isso vale, isso é humano, essa sensação, essa perplexidade, esse vazio, mas existe o pleno também. Existem outros caminhos e vamos viver com tudo porque somos múltiplos, buscar outras coisas.
A comédia nos traz isso e junta absolutamente tudo. O Bakhtin vai trabalhar sobre o gênero cômico, que é a sátira Menipéia, que reúne tudo: comédia, coisa séria, filosofia, lirismo, poesia tudo na mesma obra. Analisando a obra de Dostoiévski, ele vai trabalhar muito isso. Você pega o romance e durante 40 páginas é filosofia, é romance, mas não é só ação o tempo inteiro como se queria o moderno romance.
Então de repente da filosofia pula e é extremamente ativo, então essa multiplicidade dostoievskiana é bem humorada e isso é que eu acho interessante, que é contemporâneo, que vai além do moderno, que nós precisamos chegar a isso. Estamos muito divididos, muito compartimentados, muito nas caixinhas. Ah, não esse é aqui, ah, esse estilo vem de onde? Não tem isso. A arte não tem isso, não dá para ela ser compartimentada numa caixinha. Tem que abrir e misturar as coisas todas. Isso é um das coisas legais da arte contemporânea é isso: que os gêneros todos estão se misturando. Talvez como era lá no princípio do ritual mítico onde tudo era misturado ou no teatro Nô, onde as coisas são muito bem misturadas, equilibradas tanto a música quanto a dança como poesia e a narrativa, que é um gênero muito forte, o teatro Nô. A contemporaneidade está caminhando para isso, para essa mistura. O épico está profundamente entranhando no teatro. O dramático já se entranhou na literatura, no cinema. A dança, que é um gênero poderosíssimo, está dentro.
A obra de arte contemporânea não tem limites. Ela tem que ter uma geometria, não é misturar tudo e pronto. Ela tem que ter uma geometria e essa geometria é muito difícil, muito trabalhosa. Você reunificar esses elementos, gêneros artísticos, mas numa obra que seja íntegra, necessária, é muito difícil, mas todo mundo caminhando para isso. De repente, por exemplo, entra literatura na dança e as pessoas estão dançando e existe o texto e a narrativa literária dentro disso. Você está dançando na narrativa literária isso é magnífico!
Clarice Lispector. Como faz para dançar Clarice Lispector?
O que está fazendo nesse sentido?
A poesia me interessa muito. Acabei de estrear um espetáculo chamado: Um Dia Ouvi a Lua, com direção de Eduardo Moreira, do Grupo Galpão, lá em São José dos Campos. O texto é inspirado no teatro Nô, onde os elementos musicais são muito presentes o tempo inteiro. Os elementos líricos e épicos também estão na peça.
Estou fazendo um trabalho agora com Rui Cortez que é baseado no Kafka e no Rilke, um livro de cada um deles, sobre a figura do pai. E não existe uma única palavra no espetáculo. E tudo ações e movimentos. Tem cenas que são movimentos de dança, é a arte do movimento dentro do teatro. A gente incorpora. Não tem uma palavra, mas a gente consegue ler. O espetáculo chama-se: Os Nomes do Pai. A peça estreou em maio, no teatro Ágora, no bairro do Bexiga, em São Paulo.
Família e Lazer?
Eu tenho quatro filhos (dois rapazes e duas meninas) e dois netos que incluiria dentro do lazer (risos). Fiquei muito bobo e passei a brincar com os netos. Moro em Ribeirão Pires, no ABC, 50 km da capital, onde há bastante verde numa casa com quintal, tranquilo. Moro com minha mulher Adélia e com meus sogros (minha sogra teve um AVC). Eles moram lá com a gente. É muito bom dentro de casa ter velhos. Desperta na gente essa coisa de cuidar, tem que ter um cuidado muito especial, a relação é muito boa, velho é muito divertido, velho tem muitas histórias para contar. Isso é muito bom.
E minha vida atualmente é um pouco isso ficar em casa, trabalhando. Depois do skype, ainda, nem para fazer reunião eu saio mais. Eu sou caseiro. Gosto muito de viajar. Me dá um bom carro, me dá mil quilômetros de estrada que eu vou atrás, Gosto muito de dirigir, de conhecer outros lugares. Sempre fui muito curioso desde pequeno. Eu não gosto de fazer imagens objetivas. Lamento. Gosto muito de desviar; aonde vai dar essa estrada aqui, vamos ver, sabe?
Isso acontece com os textos, também?
Também, também, eu nunca sigo a mesma estrada, não. E, às vezes, enche o saco, o desvio não dá em lugar nenhum, meu (risada divertida). Eu conheço mais o personagem é nisso. Tudo bem, no começo eu não faço o perfil do personagem, eu imagino o personagem e ele vai se construindo. Eu elaboro muito bem o enredo, o planejamento, agora o personagem eu deixo meio solto e fico vendo como ele se vira naquelas ações e naquele destino do enredo que dou para ele. Às vezes estou querendo escrever um drama e ele desvia e se torna cômico.
Livros ou autores recomendados?
Livros: Poética de Aristóteles (fundamental a quem se interessa por dramaturgia).
Sugeriria a Experiência Viva do Teatro que é do crítico e pensador Eric Bentley.
Herbert Read que é um crítico de artes plásticas. Ele pensa a arte como um todo.
Rudolf Arnheim que fala muito de artes visuais.
Na dramaturgia, no teatro, tirando o Aristóteles, você encontra aqui o Brecht e alguns pensadores contemporâneos importantes.
Agora na minha formação eu descobri muitas coisas em outras áreas. Quem quiser fazer teatro não pode fica só no teatro, não. Literatura é fundamental. O Bakhtin é fundamental, um grande pensador. E as outras áreas todas. A dramaturgia, o teatro, não é um artifício, não é uma técnica tão somente. É uma visão de mundo, ou seja, para você aprender o mundo precisa estar equipado para isso. Então qualquer outra área cientifica é importante: psicologia é importante. Jung, Freud são importantes, são muito importantes. Mitologia… Tem que sempre ampliar porque o conhecimento é essa ampliação.
Publicado por: Rodrigo A. Corrêa em: 3 03UTC fevereiro 03UTC 2010
Por Rodrigo A. Corrêa
A nau virou e o capitão agora é caramujo,
meu grande rumo, em resumo, cabem em dois passos,
Neste tropel tal bicho é mais chato que o mundo,
E assim saiu a caminhar pelas letras…
01/02/2010
Uma e dez da manhã
Publicado por: Rodrigo A. Corrêa em: 19 19UTC janeiro 19UTC 2010
Por Rodrigo A. Corrêa
Eu sou um pássaro que apenas caminha.
Publicado por: Rodrigo A. Corrêa em: 16 16UTC novembro 16UTC 2009
Por Rodrigo A. Correa
O dez de novembro de 2009 foi caprichoso. Dormi de madrugada e acordei cedo, embora só fosse labutar das duas da tarde até dez e meia da noite. Recebi o convite por telefone e o endereço por e-mail.
Que bom, dia de sacudir o corpo e trabalhar. Pra chegar no trampo, uma experiência de quatro dias, era preciso localizar no mapa como chegaria lá. Instruções: caminha um pouco, pega o primeiro ônibus, desce e embarca no segundo. Tempo previsto de viagem: quase duas horas. Gelei e ao mesmo tempo comecei a suar muito. Eu tinha apenas uma hora e quarenta minutos. Será que na estreia já vou chegar atrasado. Mas a realidade, neste caso, era menos dura e longa. Fiz o trajeto de dois ônibus em cinquenta minutos e aí começou a caminhada. Caminhei, comi rapidamente um Angu qualquer, com gosto de cabo de guarda chuva enferrujado e sai do bar apressado. O número na rua Jesuíno Feliz era 875. Pelo menos era assim que estava no e-mail. Perguntei pelo nome da empresa, andei duzentos metros pra cima, pra baixo, na outra quadra. Mas ninguém conhecia a bendita empresa. Estava quase envergonhado. O horário bateu e eu não estava lá. Bastante suado e desatinado acabei ligando pra o amigo que tinha me convidado.
- Oi, Ildo acho que errei o endereço.
- Que endereço você tem aí?
- Rua Jesuíno Feliz, 875.
- Ih, meu querido “gato Felix” a Moça da produção te passou a informação errada no e-mail. A empresa fica no número 2875.
Bom, acompanhado do sol escaldante, acima de 32 graus fui subindo aquela rua interminável.
Cheguei molhado e ressequido e foi assim feito um gato molhado que eu me apresentei.
Pedir para tomar um pouco d’água. Entornei quase dois litros: foram seis copos de 300ml.
Logo me levaram pra uma sala com ar condicionado, temperatura ambiente de 23 graus, aquilo no primeiro momento parecia uma geladeira, frio, entretanto, como sou filho do vento, o meu corpo acabou se acostumando. Tomei mais “um pouquinho” de água e um cafezinho e trabalhei a tarde e a noite. Sou o gato Felix, sou feliz!!! As pessoas foram saindo e eu prosseguia na conclusão da minha tarefa. Quando o último falou para mim que iria embora (logo depois lembrou que uma nova turma chegaria mais tarde- o que me salvou, será?).
Fiquei eu e o vigia da empresa. Eu dentro da sala e ele na entrada do casarão (mas eu não tinha sido apresentado a ele). Pensei, mesmo que ele tenha sido avisado da minha presença, ele não me conhece).
E vocês sabem que aconteceu o apagão e aonde eu estava ficou tudo no breu. Minha santa, umas batidas na porta e ela se abre. Um homem com uma vela na mão pergunta se eu sou quem eu sou. É claro. Se eu brinco sou capaz de levar um tiro, um tiro no semi- escuro!
O trabalho que eu fazia, fazia no computador, sabe quando você gela, treme e sua, três vêzes no mesmo dia, talvez ninguém saiba?
Não, eu não perdi tudo, tudo que havia escrito. Quase!
E agora como vou pra casa?
Nunca havia estado naquele lugar e naquela escuridão duvido que algum taxista chegasse lá, e se fosse eu estaria pagando pra trabalhar, que fase braba. Afinal estou a quilômetros da minha house. Detalhe: eu achava que a queda de luz era coisa daquela região. Se eu voltasse pelo mesmo caminho que cheguei iria caminhar mais de dois quilometros na escuridão. Fiquei sabendo de uma parada junto ao aeroporto.
Perguntei ao vigia qual era o melhor caminho e enveredei quase “cego” por um caminho desconhecido.
Descobri que todos os gatos são pardos. Eu tinha olhos de gato e segui, mais a frente (novamente pingando) perguntei a dois “gatos pardos”: Como se chega na parada de ônibus?
-É fácil. Você sobe a ladeira, vai contornando o hotel, atravessa a passarela e pronto.
- Miauuuuuu!!
E lá foi o Garfield (Interrupção da consciência.Você não é o Felix? Sou pardo). O Garfield que existe em mim vai tateando aquelas ruas. Achou que vi um gatinho! Opa, esse é gato preto! A única exceção. Miei: boa noite e segui.
Minhas patas estavam geladas, meus pelos eriçados. Gato de bota, gato molhado.
Quando cheguei debaixo da passarela, vi muitos gatos pardos, agitados, desconfiados, com medo. E o escuro continuava assombrante. Atravessei a passarela, quase camuflado, e nenhum cachorro grande me atacou.
Uma centena de gatos espera o comboio. Passaram dois ônibus, no terceiro um nome conhecido. Vou pegar este e no fim da linha agarro outro.
O motorista dobrou na primeira entrada a direita, um avião aterrisou a cinquenta metros da minha cabeça e eu… (Gelei pela centésima vez). Toda a minha vida o trajeto seguia em frente. Porque dobrou? E aquela máquina de carregar felinos foi voltando…. ai, ai, ai… E aquele outro avião saindo…
- Esse vai pra Vila Mariana? (perguntei num só miado).
Rosnando, ele disse: É. Você não viu a placa?
Menei a cabeça, escondi o rabo. Sorri amarelinho e quase feliz.
O comboio com meia dúzia de gatos pingados se afastava mais do meu destino, a cidade cada vez mais pálida, “breuzadamente” falando.
O trajeto estranho e eu olhava de ponta de olho os outros gatos. Passado uns dez minutos, o motorista se depara com a rua bloqueada. O guarda de trânsito alega que ficou perigoso passar ali por causa de um acidente, interdição de pista e escuridão.
Santa Gataria…. O motorista se perde, entra em rua sem saída e se perde… Outros gatos passageiros começam a dizer o novo caminho (esse trajeto jamais será feito novamente, pois está além do acaso). No gira-gira ele entra na transversal de uma avenida repleta de carros, carregada de caminhões. Todos os gatinhos pensam e sussuram: Cuidado ao entrar. Uma guinada. C u i d a d o.
Ufa. Me dá um leitinho….
Vinte minutos depois passamos pelo mesmo local em que eu tinha pego o ônibus. Não era miragem, mas estava mais calmo afinal agora ia dar certo.
Claro que ele seguiu aquela reta que eu conhecia e assim fez um outro trajeto. Quando ele saiu da reta, dois gatos pingados, pardos, senhorais começaram a dar pitaco. Vira à direita, segue em frente, vai, vai. Sabe um saco de gatos? Eu estava naquele saco. O Motorista (gato com carteira de telhado profissional) e o cobrador querendo virar novamente à direita. E os dois gatunos lá atrás: Vai, vai, segue em frente que você vai sair na estação Ana Rosa. Nosso comboio, de um carro só, parecia desgovernado naquele lusco e fusco. O motorista inclinou o veículo duas vezes pra dobrar, e os dois do fundo gritaram, de novo: Vai, vai, em frente…
Desci miando em silêncio e pingolejando. Estava na Ana Rosa, pertinho do lar, do meu sofá vermelho e das almofadas de fuxico. Havia uma multidão de gatos penados, a maioria não sabia o que fazer. Não havia metrô, muito menos luz, nem leite pra tomar…
Caminhei até a parada atopetada de olhos arregalados. Consegui, feito sardinha, compartilhar um ônibus, esse bem mais iluminado do que o outro. Um gato de óculos recebia informações pelo celular e falava que a imprensa não estava dando notícias. Fiquei sabendo que todo o Estado de São Paulo estava às escuras. Lá vai o ônibus.
Trimmm. Minha gata ligou preocupada.
Eu, eu estou bem quase chegando em casa.
Então, te cuida, miau e um beijão.
Desço na Paulista agitada e penumbrosa.
Chego no prédio à luz de velas. Peço uma vela emprestada e começo a subida de vinte e dois andares. Por que eu estou tão pesado e fora de forma. Suar e suando, suarei em todas as conjugações. Lá pelo décimo terceiro sou o senhor Pingante, o cara mais suado das adjacências. Com os dedos cheios do sebo, dou uma respirada maior e sem querer a chama apaga. Agora sim estou no escuro total. Miauuuuuuuu! É tudo muito rápido.
Tento tatear e bater em alguma porta, uhmmmm. Melhor eu usar a luzinha do celular que estava no bolso da camisa.
Pinga, pinga, pingado, pingarei todas as escadas deste prédio. Lavei o corredor do último andar, lavei a entrada e o quarto do meu apartamento. Tirei a camisa e todo o entorno. Acendi a vela, novamente, e me assustei: O Príncipe Submarino encarnou em mim. Pensei que poderia sair nadando até o banheiro e tomar uma ducha, bem fria pra continuar no clima deste inesquecível dia nove de novembro. Como bom gato sai muito feliz (Felix) daquela corrente de água.
Olhei com doçura pra o sofazinho escarlate, espreguicei e….Meaauauuuuuuuuuu!!!!!!
Publicado por: Luiz F. Fagundes em: 5 05UTC novembro 05UTC 2009
Por Luiz F. Fagundes
Acordei sorrindo, mas, acordei. O sonho acabou.
(Curitiba – 17 de abril de 2008)
Publicado por: Rodrigo A. Corrêa em: 28 28UTC outubro 28UTC 2009
Por Rodrigo A. Correa
Em pensamento a palavra mais pornográfica que conheceu chamava-se concupiscência.
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O Professor do Pudico
Sempre achou que faltava “N” e sobrava “S” em concupiscência.
- Mas será que ”Concunpicência” não ficaria mais estranho, menos sonora, ainda?
***
O Concupiscente Literário
Desejava as palavras como um orgasmo prolongado.
Comia e desgutava cada letrinha feito o mais saboroso manjar.
A voracidade acabou em um desértico blog.
SP Junho de 2009
Publicado por: Rodrigo A. Corrêa em: 28 28UTC outubro 28UTC 2009
Por Rodrigo A. Corrêa
Alterego
Escrever é meu trabalho.
Ih, então você vai continuar desempregado!
Dois: Alterego e Alter ego
Eu gosto de estar juntinho. E eu sou descolado!
São Paulo, 17 de Maio de 2009.
Publicado por: Uhu! Quadrinhos por Luiz Fagundes em: 27 27UTC outubro 27UTC 2009
Publicado por: Luiz F. Fagundes em: 26 26UTC outubro 26UTC 2009
Por Luiz F. Fagundes
Mais uma tarde chuvosa na periferia de uma grande cidade. Céu cinzento, nuvens ameaçadoras e um vento que insistia em virar os guarda-chuvas, molhando os apressados trabalhadores que tentavam chegar em casa após mais um exaustivo dia de labuta. Os carros, parados nas grandes avenidas, pareciam modernas estátuas de ferro e vidro, com luzes amarelas para quem vem, vermelhas para quem vai.
A noite não foi muito diferente. Foi assim que testemunhou Seo Jeremias. Noventa anos de amargura e desalento. Uma desesperança crescente desde que retornou da Segunda Guerra Mundial, sem uma perna e com marcas profundas. Na pele e na alma. Mas tudo ganharia um novo sentindo naquela manhã. E os primeiros raios de Sol que rompiam as nuvens para bater em frente à janela de sua casa, aos poucos deixariam tudo mais claro.
Os operários que escalavam a enorme escada nunca foram vistos por aquelas bandas. Aliás, aquele muro permanecia praticamente branco há anos, não fossem algumas pichações, mais um tormento na vida do pobre Seo Jeremias. Os ponteiros do relógio estavam apressados como paulistanos, mas era impossível deixar aquela janela até saber que raio faziam aqueles homens em seus macacões azuis.
Ao final do dia, a resposta. Uma enorme letra ‘A’ era a solução que trazia ainda mais dúvidas. Afinal de contas, porque aqueles homens passar todo o dia apenas para desenhar no muro aquela nababesca letra. E com aquela interrogação Seo Jeremias finalmente foi dormir. A.
O dia amanhece e novamente os homens de azul aparecem. E logo lá estava o encucado velhinho na janela. Novamente um dia puxado de trabalho, trepados em escadas, verdadeiros artistas se equilibrando no ar. E aos poucos mais uma parte do mistério se revelaria. M. Sim, a letra ‘M’ aparecia majestosa ao lado de sua pioneira companheira. E as estrelas guardariam por algumas horas aquilo que ainda nada dizia: AM
Seo Jeremias se desesperava. Tentou chamar, em vão, os operários. Precisava de alguma resposta. Já não comia, não bebia e, a partir daquele dia, já não dormia mais. E aquelas duas letras gigantes atormentavam o seu ser. O que era aquilo se formando diante de seus olhos, tão grande e onipresente, tão misterioso e tão potente.
E as horas de espera por mais uma dica deixariam o relógio mais lento e a angústia com o tempo se tornaria uma paranóia. Não era possível. Porque depois de tanto anos ele deveria se curvar a um simples muro. Mas o sinal estava lá. E a letra ‘O’ que se formou naquela dia não lhe deixava mais dúvidas. Ele deveria ser apenas um servo, pois o muro era seu dono, ou melhor, seu AMO.
Mais um belo dia ensolarado na periferia. O céu azul e as flores abertas insistiam em se oferecer ao suave vento. Porém, muito fraco pelos dias de adoração, o fio de vida que ainda animava Seo Jeremias estava prestes a se romper. E ainda na maca, passando em frente ao muro, uma rápida passagem de olho deu um novo alento àquela alma perdida. Ele mal podia acreditar no que estava lendo. Era a esperança renascendo. A prova definitiva de um novo tempo. E com um último suspiro e um sorriso nos lábios, a última visão do solitário velhinho foram as letras dizendo: AMOR
Alguns dias se passaram após a partida de Seo Jeremias. Mas, os operários de azul continuavam a desenhar. Dia após dia deixavam mais uma letra. Feliz foi Seo Jeremias. O destino quis que ele deixasse a esperança sobreviver a seu último suspiro. Não precisava e não deveria ver mais nada. Não foi tarde seu encontro com a felicidade. Foi na hora que tinha que ser.
Para os vizinhos, pobre foi Seo Jeremias. Perdeu a festa que inaugurou o novo comércio da rua. Com balões, música, salgados e até bolo. Boca livre de dar gosto. E as letras garrafais, imponentes, convidavam a todos para resolver os problemas causados pelas esburacadas ruas da cidade em dias de chuva: AMORTECEDORES AQUI
(Escrito em maio de 2007)
Publicado por: Luiz F. Fagundes em: 20 20UTC outubro 20UTC 2009
Por Luiz F. Fagundes
Cansado da rotina, entregou-se à loucura. Fez-se o mundo.
(escrito em algum renacimento de Fênix, em 2004)
Publicado por: Rodrigo A. Corrêa em: 19 19UTC outubro 19UTC 2009
Por Rodrigo A. Corrêa
Aquele pombinho beija tão diferente que até o beija-flor fica embevecido.
E o jeito de se ‘apombar” no regaço de sua amada é por demais peculiar.
Ele é muito carinhoso e encanta a passarada.
Talvez o mais notável seja entender de tudo e não saber voar
(SP- 03/04/09 – sexta-feira 20h45)
Em homenagem ao meu amigo César
Publicado por: Luiz F. Fagundes em: 17 17UTC outubro 17UTC 2009
Por Luiz F. Fagundes
Como caçula e filho homem e mimado da casa, eu deveria ser o menino birrento e o adolescente problema da família Fagundes. No entanto, minha avó paterna resolveu assumir esse papel dentro da cadeia familiar, sendo a causadora das maiores polêmicas que ameaçam a paz deste humilde lar. Porém, foi numa de suas sagazes teorias que parei para analisar um fenômeno que assola a imprensa e até os papos de botequins, fofoqueiras e taxistas: as “não-notícias”.
A capa e o personagem logo me chamariam a atenção. Ele, o incorrompível José Dirceu garantia que não abandonaria do governo. A mais conhecida e não tão confiável revista semanal do país prometia uma entrevista esclarecedora. O maior escândalo do primeiro ano de mandato de Lula mexia com a política e a economia do Brasil. Tudo poderia estar indo por água abaixo naquele momento.
Peguei a Veja sobre a estante e, antes de me acomodar no confortável sofá azul-marinho-roxo-desbotado de minha sala, recebo o alerta de minha avó: “Olha Felipe, essa não tem nada. Essa aqui é a boa. Está repleta de coisas. Lê essa aqui”, e tremulava a Contigo como uma ianque mostrando com orgulho sua bandeira em plena Guerra da Secessão.
Diante da insistência, não tive coragem de contar para ela que estava errada. Que o que julgava interessante não passava de futilidade. A Veja sim continha os assuntos de interesse realmente comprovado. O que era importante estava ali, na outra somente o mundo das celebridades do momento, o horóscopo, a novela e, segundo a manchete, Luma e seu bombeiro. Peguei as duas revistas. Comecei uma divertida brincadeira comigo mesmo. Transportar as notícias para o “mundo de Contigo” e vice-versa.
Capa: “José Dirceu arrependido (com sua toquinha de Bariloche)”, ou, “Luma fala a Veja: Não vou sair com o Bombeiro”. Há, recorde de vendas. Vamos para as novelas. Que tal “A Cor Vermelha do Pecado”? Capítulo de segunda: Diniz conta a Dirceu que vai para o Sul. Lula encontra Dirceu e manda que ele escolha entre os dois. Diniz tenta falar com Dirceu, mas este perde a calma quando ela fala mal de Preta (opa, do PT).
Aliás, esse capítulo me lembra outra novela. Mais uma não-notícia que invadiu a pauta das TVs, jornais, internet e revistas. Zeca Pagodinho contra a Nova Experimenta. “A Cor da Cevada”. Capítulo de segunda: Pagodinho conta a Schin que vai tomar no Sul. Brahma encontra Pagodinho e manda que ele escolha entre as duas. Schin tenta falar com Pagodinho que perde a calma quando ele fala mal da Brahma. Não existe fusão que entenda.
O fenômeno não é novo. Como esquecer a macaquinha Capitu, que invadiu minutos preciosos do horário nobre em pleno Jornal Nacional. Não se lembra? A peralta primata que atravessava um rio a nado para trair seu companheiro? Pois é, é provável que você não lembre. Esse fenômeno tem vida curta. As não-notícas mais resistentes raramente passam de 15 dias. Não sei se Capitu morreu na tragédia do zoológico de São Paulo, nem se deixou herdeiros. Aliás, é bom ir ao Programa do Ratinho para fazer um teste de DNA e saber qual macaquinho é o pai: o empresário ou o bombeiro.
Porém, a brincadeira acabou na página 68. Na 69 também. E por duas páginas mais. Quatro. Quatro páginas da Veja dedicadas à miss não-notícia, Luma de Oliveira. Eu me rendia. Eu era um reles mortal que vivia num mundo tortuoso, de corrupção, ganância, politicagem, mas que às vezes surpreendia com incríveis descobertas, atletas vitoriosos, pensamentos revolucionários. Veja só, estamos numa época superinteressante, vivendo num castelo de Caras ou em um mundo de Contigo. Ora, isto é uma vergonha? E só eu não percebi… Obrigado, vó.
(Publicado em abril de 2004, quando ainda morava em São Paulo, quando ainda tinha avó, e quando a Dilma ainda era o Zé)
Publicado por: Rodrigo A. Corrêa em: 15 15UTC outubro 15UTC 2009
Certos problemas nas cidades brasileiras estão sendo resolvidos pelo próprio pessoal da periferia. As ações do poder púbico e de grandes empresas não conseguem mudar a situação caótica. Volta e meia nascem projetos interessantes, mas é pouco.Publicado por: Luiz F. Fagundes em: 13 13UTC outubro 13UTC 2009
Por Luiz F. Fagundes
Juari andava cabisbaixo. Desde que sua amada Juliana o abandonara, a vida já não lhe fazia mais sentido. Pelo menos até aquela quinta-feira. Dia de compras para Dona Marta. Seios fartos, divorciada, lábios carnudos, enfim, mulher, mas mulher mesmo. E que mulher. Morava no apartamento de cima, mas nunca chamou a atenção de Juari. Sempre foi fiel e submisso. Mas, Juari agora estava só. Solitário e como um vulcão pronto para entrar em erupção. Marta acabara de entrar no elevador.
- Bom di…dia (que peitos!), belos melões, hein?
- O que?? Seu tarado!!
- Me refiro aos melões que estão no carrinho. Também são muito bonitos (Controle, Juari!).
- Me desculpe! Não sei onde estava com a cabeça. Bom, para reparar essa injustiça eu lhe convido para jantar comigo esta noite. E não aceito um ‘não’ como resposta!
- Claro, com prazer. Afinal, somos vizinhos há anos… (É hoje, Juari!)
- As oito?
- As oito (As nove, as dez, até o café da manhã..).
O coração de Juari pulsava como antes. Juari estava vivo novamente! E precisava caprichar. Passou em uma adega e pegou o vinho mais caro. Fez a barba, cortou o cabelo e colocou a roupa de domingo, que já estava esquecida num cantinho do armário, velada por um velho quarteto de naftalinas. Juari estava confiante. Comprou flores. Tocou a campanhia. Oito horas em ponto.
- Pois não?
- Me desculpe, acho toquei no apartamento errado.
Juari sabia que era o lugar certo. Mas, quem abriu era a pessoa errada. Peito atlético, braços fortes, olhos azuis. Munido de avental e facão, ainda segurava um dos ingredientes do jantar em sua mão. Juari respirou. Voltou a tocar.
- Err.. Boa Noite. Sou o Juari, vizinho do 62, fui convidado pela Dona Marta. Belo pepino, hein?
- Ah sim, entre. Amooor, o vizinho já está aqui.
Flores em uma mão, vinho na outra, Juari era o retrato da decepção. Pobre Juari. Que noite o aguardava. Que dor no coração. Não viu o torneado amante servindo-se de uma saudável salada. Nem viu também quando Marta entrou e trouxe o prato da noite. Macarrão. À bolonhesa.
Ah, quanta alegria no rosto daquele casal. E Juari mal tinha força para levar o garfo à boca. E conversaram sobre música, cinema, economia, política… O casal. Juari permanecia calado. Em outro mundo.
- E sua esposa, não veio porquê?
- Sou solteiro. (Queria comer ela também, garanhão?)
- Ah, que pena, é tão bom ter alguém ao nosso lado.
- Ô… (Ele está me provocando…)
Mas o pior estava por vir. O convite de Marta foi a sentença.
- Quer melão?
Juari perdeu o controle. Com um facão na mão, mutilou o noivo de Marta e partiu para cima de sua musa. Queria ela naquele momento e seria à força. Ninguém poderia impedir seu momento de realização.
- Quero melão! Os dois! Quero você, à bolonhesa!
Mas, Juari não era assim, e tudo não passou de uma nuvem de pensamentos maquiavélicos. Agradeceu o jantar e deixou os noivos em seu ninho de amor. Toda quinta-feira Juari vai à quitanda. Juari nunca esquece de comprar melões. Pepino nunca mais.
(Essa crônica, ou conto, sei lá, escrevi em maio de 2003 e deveria entrar em meu projeto experimental na época, um site de culinária chamado Mistoquente.net. Mas, não tinha nada a ver e agora volto a publicá-la em um blog).
Publicado por: Rodrigo A. Corrêa em: 13 13UTC outubro 13UTC 2009
Por Rodrigo. A Correa
Duas vendedoras, senhoras, com cabelos pintados de caju, trocavam figurinhas. Ao ser interpelada pelo chefe, a de cabelo mais curto não seguiu as ordens do homem. Ele, que ao falar, tem o hábito de colocar a mão nos ombros das funcionárias. E a pergunta: Que loja e andar estou?
Falsa Jóia
O sorriso era lindo mas falso. O batom brilhante deixava os lábios ainda mais verdadeiros e apetitosos. Com o tempo ela deixou de enganar seu amante.
Circulando
O erotismo e falação das pré-adolescentes irritava o tiozinho, mesmo assim, ele não deixava de acompanhar aquelas fanfarrices.Sobrinhas atrevidas. A magrinha passou tentando requebrar e chamou atenção de um garotinho loiro e nada mais aconteceu
Que número você calça?
34 – 35. E você?
35 – 36.
Veja este: chocante!
E aqui: Amei!
E sua mãe calça quanto?
40.
Ih, vou demorar para chegar lá. Bom, não quero chegar…
Porto Alegre, 06/07/09
Publicado por: Luiz F. Fagundes em: 11 11UTC outubro 11UTC 2009
Por Luiz F. Fagundes
Silêncio durante o filme é algo essencial. Claro que uma determinada cena ou quando algo que seja comum entre pessoas que estejam assistindo juntos aparece pode ocasionar sinais, cutucões e olhares ‘você viu?’. Isso é muito válido. Porém, numa terça-feira à tarde, o clube dos corações solitários leva seus sócios para as poltronas. E vinte minutos de luzes acesas podem ser enigmáticos. Paranóicos.
Silêncio. Um ranger de cadeira indica que alguém ali na primeira fileira tenta se ajeitar. Nada muito brusco. Um ranger seco e rápido. Apenas um cabelo crespo e uma calvície eminente. Os que estão atrás, que nem sei quantos são, não têm nem forma. Os que estão pela frente apenas uma coleção digna de um índio fanático por escalpes. Ao meu lado um outro som quebra a catatonia coletiva.
Um suspiro. Uma senhora com três, talvez quatro ou cinco pacotes. Cinema de shopping. Janeiro é mês de liquidação. Consumir cansa. Ser consumido também. Ainda faltam quinze minutos e já cruzei a perna direita sobre a esquerda (fazendo trocas a cada 30 minutos ou ao menor sinal de formigamento). Mais duas pessoas entram. Cada uma escolhe uma fileira. “Com licença”, ouço. “Obrigado”, imagino ouvir. “‘Magina”, respondo com a certeza de que não fui ouvido. É o medo de romper a lei do silêncio. Ali são todos invisíveis e um mínimo descuido pode fazer você ser notado.
Tosse. Uma embalagem aberta. Opa! Seria uma bala? Morango? Hortelã? Uma pastilha para garganta? É possível. Você já percebeu como tem ente doente nessa época do ano? Febre, dor de garganta, coriza… Lembrei que eu ainda estava saudável. Mais uma tosse. Acho que foi a mulher das sacolas. E eu ali, tão vulnerável. Confesso que fiquei até sem ar. Acho que foi uma defesa. Defesa idiota, ao invés de resfriado eu ia morrer com uma parada respiratória.
Silêncio. Bateu uma saudade. Mas eu sabia o porquê de estar ali tão só naquele momento. Meu planetinha anda tão complicado. “Ainda não são três e vinte?”, indagou uma figura pitoresca. “Ainda não”, de pronto, mas com um ar de reprovação responde a mulher das sacolas. “Mas já é quase”, violava o silêncio outra vez com sua voz grave, mas levemente adocicada. “Sim, já é quase”, devolvia com um tom de fúria.
Desligam-se os celulares. Um atrás do outro. “Mas, afinal que horas são?”, o despudorado atrevia-se a prevaricar novamente. “Contenha-se senhor”, esbravejou (quase em silêncio) a senhora, absolutamente envergonhada por ter sido notada e ter cometido tamanha violação de conduta. Eram três e dezenove. Um minuto de silêncio. Já não sabia se esperava por um filme ou por um morto. Apagam-se as luzes. Agora ia começar. Para mim já tinha terminado. Só queria voltar para meu planetinha.
(escrito em um momento de paranóia em 2004)
Publicado por: Luiz F. Fagundes em: 9 09UTC outubro 09UTC 2009
O que eu acho das Olimpíadas 2016 no Rio. Como opiniões contrárias não são aceitas, prefiro apenas ilustrar este post.

Empreiteiras vibrando e o povão tomando
Bom, são eles que estão dizendo!
Publicado por: Luiz F. Fagundes em: 8 08UTC outubro 08UTC 2009
Por Luiz F. Fagundes
E o remédio que me cura é de uso contínuo: você.
São Paulo – 09/06/2004
Publicado por: Luiz F. Fagundes em: 8 08UTC outubro 08UTC 2009
Por Luiz F. Fagundes
Acabou. Apague as luzes ao sair.
Curitiba – 11/06/2004
Publicado por: Luiz F. Fagundes em: 8 08UTC outubro 08UTC 2009
Por Luiz F. Fagundes
Caminhou um mês sem parar para encontrar si mesmo
São Paulo – 17/06/2004
Publicado por: Luiz F. Fagundes em: 8 08UTC outubro 08UTC 2009
Por Luiz F. Fagundes
Finalmente foi embora. É tarde demais.
São Bernardo do Campo – 18/06/2002
Publicado por: Luiz F. Fagundes em: 8 08UTC outubro 08UTC 2009
Por Luiz F. Fagundes
Penso: “Até logo”. Existo.
São Paulo – 22/06/2004
Publicado por: Uhu! Quadrinhos por Luiz Fagundes em: 24 24UTC setembro 24UTC 2009
Por Luiz F. Fagundes
Desconfiado da própria sombra,
apagou a luz a sangue frio
(SP, 2004)
O desconfiado demais acaba sozinho. O paranóico, louco. Mas, hoje em dia, não me parece loucura se esconder na escuridão.
P.S: Espero um dia poder desenhar melhor do que eu uso o Photoshop. Espero um dia poder usar o Photoshop melhor do que eu escrevo. Mas também espero poder um dia escrever melhor do que eu penso.
Publicado por: Rodrigo A. Corrêa em: 24 24UTC setembro 24UTC 2009