Projeto Uhu!

O mundo das palavras inventadas em cada estrada

Publicado por: Rodrigo A. Corrêa em: 30 30UTC junho 30UTC 2010

Entrevista com Luís Alberto de Abreu

Por Rodrigo A. Corrêa

Foto: Cesar Suga

Apaixonado por dirigir. Procura novos caminhos. O lado curioso e inusitado em geral lhe acrescenta nuances, outros detalhes e é mais divertido. Seus personagens tem essa liberdade de andarilho que ajudam-no a fugir das mesmas fórmulas, do que já escreveu. O olhar atento busca sempre o ser humano. Gosta de escrever em colaboração, com grupos. É um professor que transforma seus ouvintes e que gosta de aprender com os seus alunos.

Ministrou um curso de três dias, no SESI-SP sociocultural, no final de março: Construção de Personagens Cômicos, a partir de Arquétipos- Os elementos fundamentais da comédia. Muito além da seriedade e pequena timidez, transparece amor e capricho no que faz. É um instigante criador. Adora ler, contar e ouvir histórias.

Um dos seus segredos, é simples como ele, o mundo está repleto de histórias em casa, no trem, no ônibus, no bar, no caminho, em qualquer lugar…  “O Teatro é oralidade. A gente escreve o que ouve”, diz. Sábio no ouvir, perspicaz no olhar, vai decifrando os outros, os eus. Ele garimpa palavras, frases, imagens. É um pesquisador nato. Quando fica comovido, emocionado com alguma imagem, ali nasce algo que depois se traduz em um enredo, uma peça, um filme, um livro. Já escreveu mais de 60 textos. É um sobrevivente! A jornada profissional do dramaturgo começou em 1980 com Foi Bom, Meu Bem?

É preciso conhecê-lo mais e melhor. Adaptou Hoje é Dia de Maria, minissérie da  Globo. Crítico, rude, terno e comovente. É inventivo, divertido e artesanal tecendo a vida em cada estrada, faz o trajeto da primazia, eis Luís Alberto de Abreu.

  Você queria drama e corrompeu-se pela comédia. De onde vem sua paixão pelo cômico?

 Não sei, talvez tenha vindo da minha própria formação. Eu me formei… a minha família é mineira, eles não são muito cômicos, mas eu nasci (1952) aqui em São Bernardo do Campo e numa época eu convivi muito com nordestino, muito, e eles são muito engraçados e, depois que eu vim conhecer o nordeste, as pessoas, tal, eles tem um humor muito grande. Eu acho que fui muito influenciado por isso. Eu acho que tem o lado mineiro que é o lado mais sério, mais religioso. E a gente tem o mineiro, a gente é o nordestino que é o humor medieval, humor de praça, humor de festa. Acho que vem daí meu gosto pelo humor. Embora eu faça também e goste muito de trabalhar o drama, mas o humor pra mim é muito divertido, muito prazeroso.

Você fez uma peça através de uma imagem. Como foi?

 Eu trabalho fundamentalmente a partir de imagem. A comunicação se dá a partir de imagens. Mesmo que a gente invente, sei lá, por exemplo: a Teoria da Relatividade vai ter que transformar em imagens pra comunicar. A imagem é aquilo que comunica. Antes de começar uma peça eu preciso saber que imagem me toca. Então, se existe uma imagem que me toca imagino que ali esteja querendo ser parida uma história. Então, prefiro sempre uma imagem tocante: ou risonha ou dramática ou trágica, mas essa imagem humana, tocante, eu aproveito essa imagem pra desenvolver meu texto a partir daí. Às vezes vem de uma idéia, quero trabalhar com um tema determinado, imediatamente eu vou procurar uma imagem que possa corresponder a esse tema, a essa ideia e a partir daí eu começo meu trabalho de criação.

E sempre assim o seu processo de criação?

Todas as peças, de certa maneira, são assim. Eu procuro sempre uma imagem. Quando eu escrevi Guerra Santa, por exemplo, é uma Divina Comédia que se passa aqui no mundo mesmo, contemporânea. A imagem que me veio era um descontrole de um sujeito físico que o braço dele se descontrolava, embora ele tentasse controlar. Foi essa desagregação que me veio e a partir disso que eu criei o personagem Dante, um revolucionário, um guerrilheiro no final da década 70 e começo de 80. Ele se nega a incorporar ao sistema, se torna um bandido matando gente, mas não um bandido, ele tem um ódio muito grande contra o sistema, contra a injustiça e ele continua nisso. Foi uma coisa meio Sendero Luminoso. Ele continuava revolucionário embora numa época em que a revolução talvez não fizesse tanto sentido. Nisso ele encontra um antigo mentor dele, um professor de faculdade, um filósofo que se chamava Virgílio e sequestra esse cara e tem a Beatriz, uma senhora já madura, estéril. Eles fazem uma peregrinação pela cidade até que discutindo essas questões todas e no final das contas o Dante mata o Virgílio. Ele mata o mito, o mestre dele. Dante perdeu o controle. 

A hybris dele estava na guerra, na luta, até que ele perdeu “o braço” que já comandava o próprio ser dele, então ele tinha assassinar, ele assassinava. Assassinou tanto Dante quanto Beatriz. Numa inversão total da Divina Comédia num inferno muito mais terrível. Então vem uma imagem que eu sinto esquisita e tenho que processar, ou seja, a imagem do sonho eu tenho que processar. Às vezes uma imagem cômica, e já vou ver o personagem e começo a investigar esse personagem e a peça ou o texto começa a nascer disso.

Quais os elementos que estruturam ou como dá comédia?

Olha a comédia se dá de inúmeras formas. Eu sempre digo que o gênero dramático tem um padrão referencial e essa referência a gente tem escrito e pensado que é a poética. Esse é o padrão referencial do gênero sério que seria a tragédia, o próprio drama e o melodrama. Situação gênero sério que fala sobre sofrimento humano.

Tudo que foge desse padrão necessariamente dá em comédia. Uma característica fundamental da comédia é a hipérbole. Tudo que for exagerado: a seriedade e a inteligência exageradas, tudo que for exagerado gera riso. Algumas pessoas pensaram muito sobre isso. (Henri) Bergson coloca como elemento da comédia aquilo que foge ao normal, aquela imprevisibilidade do raciocínio, a repetição gera comedia.

A comédia se faz fundamentalmente pelo personagem. É o caráter que determina a comédia. A gente tem na própria poética que o mito, o enredo é a alma da tragédia. Ou seja, o gênero sério tem que ter um enredo muito bem elaborado. A comédia não precisa, embora algumas tenham enredos bem elaborados. Ela só precisa de um tipo, de um caráter tolo, um caráter defeituoso, um defeito físico ou moral pra gerar a comédia. Então, tudo que foge do padrão clássico gera comédia. Naturalmente, os sujeitos gordos e muito magros são despadronizados e geram risos. Isso é muito interessante, o (Mikhail) Bakhtin trabalhou muito em cima disso. O gordo gera riso porque ele representa a fartura. A figura dele representa essa fartura que significa o afastamento da morte. Viveria muito porque come muito. Então, o gordo, por exemplo, é cômico. O Bakhtin faz uma topologia do riso e coloca-o nas partes baixas e qualquer imagem ou mecanismo das partes baixas, gera riso. Se tiver hipérbole vai gerar o riso.

A comédia está muito ligada à própria ideia de natureza, enquanto a tragédia e o drama estão ligados a idéia do homem, da construção humana, a comédia está ligada a destruição e a regeneração, ao ciclo, ela está muito mais ligada a isso. Tudo aquilo que possa representar vida, prazer: é comédia. Se colocarmos o elemento da própria natureza, que é hipérbole, ou seja, o exagero, e a natureza é sempre exagerada em tudo, então nós temos a comédia. O sujeito que tem uma orelha enorme, mas uma só, quando mais enorme ela for, percebe, a tendência disso é gerar comédia porque está fora de padrão e existe uma hipérbole aí; e uma característica fundamental da comédia é a própria ideia desses ciclos da natureza que não tem consequência, então ele morre e renasce novamente. Nada tem consequência. Ele apanha, a gente ri e ele continua vivo, continua fazendo a mesma coisa fez, ou seja, apanhar de novo.

Existem alguns arquétipos que indicam a comédia. O arquétipo do tolo, daquele que é inconstante, daquele que tem manias, que indica a ideia do cômico. A criança até três anos, por exemplo. Porque o que nos faz rir é a ausência do medo, o destemor. O riso brinca com a morte, com o militar, brinca com o chefe, brinca com o sagrado, brinca com tudo, não existe o medo no universo do riso, isso é um dado que é muito significativo. Então sempre que houver esse tipo de relação onde não existe consequência, isso vai gerar riso. A comédia é inconseqüente, por definição ela é inconsequente. O que é o fundamental e o Bakhtin faz isso, ela não é inconseqüente à toa nem destrói à toa, ela destrói sim e é feita pra destruir, mas destrói pra ser reconstruída porque a comédia necessariamente é cíclica. O Bakhtin faz uma análise e uma crítica muito grande em cima do humor romântico, o humor burguês que se desenvolveu nos séculos XVIII e XIX, que é um humor apenas rebaixador.

Na comédia ela rebaixa sim, ela cria uma horizontalidade entre os seres humanos.   

Ninguém vale nada nem papa nem general nem presidente nem santo nenhum vale nada, todo mundo é humano. Vale tanto o santo quanto vale o miserável. Então, ela degrada tudo, todos e qualquer instituição mesmo, não existe sacralidade. Ela degrada, mas para ser reconstruída nesse grande ciclo.

 O cômico é apropriado pelo sistema, pelo status quo?

 O status quo não pertence ao cômico. O cômico é esse movimento constante. E se estabelecer um status ali ele quebra, ele derruba.

Mas alguns elementos do cômico são apropriados. É isso que fala o Bakhtin. Tinha uma comédia que era feita em cima dos defeitos de classe. Se ria, por exemplo, dos pobres, dos empregados, enquanto se preservava a classe dominante, a nobreza. Molière era censuradíssimo, o rei gostava muito das comédias, mas era censurado porque ele não podia mexer com tudo. Então muitas das peças do Molière e, principalmente, depois dele eram peças domesticadas: era o olhar cômico burguês sobre o mundo e até determinado ponto. E isso o Bakhtin afirma que é uma limitação da comédia. A comédia derruba mesmo. E a comédia veio ao mundo a partir do movimento, do ciclo de destruição e construção e eu concordo. Ela horizontaliza tudo, não existe sagrado e ele diz mais, não é que a comédia deteste o sagrado, não, ela inclui o sagrado dentro da visão risonha de mundo. Ele analisa a época medieval no famoso livro: Cultura, Popular na Idade Média e na Renascença e fala que dentro da visão cômica medieval cabia o sagrado e este era respeitado pelas pessoas, seja o sagrado religioso cristão seja o sagrado pagão, eles respeitavam muito. Mas isso estava imerso dentro de uma visão cômica. Como eles tinham o sagrado eles tinham o profano que quebrava o sagrado. Respeitavam o sagrado e ao mesmo tempo destruíam o sagrado, isso é a base da comédia. Aquilo que já passou do tempo, aquilo que não tem sentido, aquela construção moral, comportamental, que não tem mais sentido, ah isso é prato cheio para a comedia e ela destrói mesmo para ser recriada outra.

 A poesia cabe dentro da comédia?

Nossa, cabe sim. Eu fiz um projeto chamado Comédia Popular Brasileira. Foi uma pesquisa que eu fiz com a Fraternal Cia. de Artes e Malas-Artes, com direção do Ednaldo Freire que foi processo de pesquisa longo. Ficamos juntos durante 12 anos. Escrevi 14 peças e fizemos14 encenações. A Gente começa com os títulos da Comédia Dell`Arte e escreve quatro peças e depois entra nos heróis da Cultura Universal. Depois entra nos Autos Populares que são ibéricos e a seguir encaminha para algo mais Pirandelliano, que reflete um pouco essa contemporaneidade de fragmentação, inclusive fragmentação do próprio sistema de produção teatral. Então, surge diretor questionando personagem, autor, essa bagunça toda, essa fragmentação, que aconteceu no mundo e aconteceu no teatro também.

A primeira peça que foi O Parturião e a segunda O Anel de Malagão que eram dentro dessa nacionalização dos personagens dos tipos da Comédia Dell`Arte, do século XV e XVI. E procurávamos na nossa cultura brasileira, os tipos correspondentes.

Lembro que a segunda peça era muito forte e uma comédia muito corrosiva, talvez seja a que eu melhor trabalhei o texto, um texto poético mesmo. Vocês conhecem Molière. Molière trabalhava uma qualidade poética os textos dele que é impressionante. O próprio Gil Vicente, da nossa produção, quando a gente escreveu os Autos, ele apresentou um saber poético enorme. 

O Anel de Malagão era uma comédia muito farsesca. Tinha uma violência muito farsesca e aí comecei a trabalhar poesia, inclusive, como contraponto.

Cabe o que você quiser na comédia. Segundo Bakhtin, a comedia é uma visão sistêmica, é uma visão de mundo que é abarcado por esse grande ciclo de morte e renascimento, de degradação e regeneração: é isso a vida.

Por isso a metáfora da comédia é a própria natureza.

Tragédia x Comédia?

Tragédia é um padrão importante. Os gêneros sérios eles tratam da construção da sociedade, da construção humana muita profunda, uma construção arquetípica, a construção das emoções, o melodrama trabalha muito isso: aquisição das emoções. Os gêneros sérios têm um padrão na construção e que foi determinado por Aristóteles e tem validade até hoje que é a unidade de ação. Qualquer ação que aconteça está relacionada com a linha principal daquela peça, com a trajetória do protagonista. A comédia não. Ela foge disso. Despadroniza. Muitas vezes tem vários protagonistas. A comédia é complementar a tragédia porque a função primeira, o impulso primeiro dela é destruir. Onde a comédia fez tabula rasa das instituições, dos costumes, de tudo, acabou com tudo, aí vem a tragédia, os gêneros sérios construindo, construiu. Está ótimo? Ok?  Aí vem a comédia dizendo vamos destruir tudo de novo, ah, ah. Quer dizer é uma brincadeira constante.

São complementares e, às vezes, a comédia inclui, dentro de si, o próprio drama. Nós temos, por exemplo, a tragicomédia que é isso. Temos Dom Quixote de La Mancha, do Cervantes, que é exatamente isso, que é dentro da visão cômica do riso cabe também a tragédia. A trajetória de Dom Quixote é duríssima, a gente ri muito, mas se emociona com a trajetória daquele velho, que é um doido, que é um maluco, que de repente que se percebe que não é tão maluco, não é tão babaca assim, que tem um sentido humano aquela procura dele. Aquelas viagens, aquelas saídas, aquele amor. É utópico aquele amor, mas existe, Dom Quixote acredita e vive aquele amor. Então isso nos ensina, isso é construtor dentro de um personagem cômico, percebe?

Então os gêneros são complementares, e não é como no Grego. No Grego, os gêneros eram muito bem separados ou era comédia ou era tragédia, bem separados, eles não se misturavam. O Shakespeare foi acusado pelos neo-classicistas franceses como um bárbaro porque ele misturou comédia dentro de um drama e ele fez isso muito bem.

É bom que a comédia se misture com tudo porque a apreensão do mundo é a união de todas essas coisas. A visão do mundo não só trágica nem só cômica, as duas visões convivem e são complementares, qual é o problema?  Por que temos que ter uma visão absolutamente trágica, séria da vida?

Tudo bem no século XIX, o ceticismo aquela visão do homem sem sentido e no século XX, seguinte ainda isso vale, isso é humano, essa sensação, essa perplexidade, esse vazio, mas existe o pleno também. Existem outros caminhos e vamos viver com tudo porque somos múltiplos, buscar outras coisas.

A comédia nos traz isso e junta absolutamente tudo. O Bakhtin vai trabalhar sobre o gênero cômico, que é a sátira Menipéia, que reúne tudo: comédia, coisa séria, filosofia, lirismo, poesia tudo na mesma obra. Analisando a obra de Dostoiévski, ele vai trabalhar muito isso. Você pega o romance e durante 40 páginas é filosofia, é romance, mas não é só ação o tempo inteiro como se queria o moderno romance.

Então de repente da filosofia pula e é extremamente ativo, então essa multiplicidade dostoievskiana é bem humorada e isso é que eu acho interessante, que é contemporâneo, que vai além do moderno, que nós precisamos chegar a isso. Estamos muito divididos, muito compartimentados, muito nas caixinhas. Ah, não esse é aqui, ah, esse estilo vem de onde? Não tem isso. A arte não tem isso, não dá para ela ser compartimentada numa caixinha. Tem que abrir e misturar as coisas todas. Isso é um das coisas legais da arte contemporânea é isso: que os gêneros todos estão se misturando. Talvez como era lá no princípio do ritual mítico onde tudo era misturado ou no teatro Nô, onde as coisas são muito bem misturadas, equilibradas tanto a música quanto a dança como poesia e a narrativa, que é um gênero muito forte, o teatro Nô. A contemporaneidade está caminhando para isso, para essa mistura. O épico está profundamente entranhando no teatro. O dramático já se entranhou na literatura, no cinema. A dança, que é um gênero poderosíssimo, está dentro.

A obra de arte contemporânea não tem limites. Ela tem que ter uma geometria, não é misturar tudo e pronto. Ela tem que ter uma geometria e essa geometria é muito difícil, muito trabalhosa. Você reunificar esses elementos, gêneros artísticos, mas numa obra que seja íntegra, necessária, é muito difícil, mas todo mundo caminhando para isso. De repente, por exemplo, entra literatura na dança e as pessoas estão dançando e existe o texto e a narrativa literária dentro disso. Você está dançando na narrativa literária isso é magnífico! 

Clarice Lispector. Como faz para dançar Clarice Lispector?

O que está fazendo nesse sentido?

A poesia me interessa muito. Acabei de estrear um espetáculo chamado: Um Dia Ouvi a Lua, com direção de Eduardo Moreira, do Grupo Galpão, lá em São José dos Campos. O texto é inspirado no teatro Nô, onde os elementos musicais são muito presentes o tempo inteiro. Os elementos líricos e épicos também estão na peça.

Estou fazendo um trabalho agora com Rui Cortez que é baseado no Kafka e no Rilke, um livro de cada um deles, sobre a figura do pai. E não existe uma única palavra no espetáculo. E tudo ações e movimentos. Tem cenas que são movimentos de dança, é a arte do movimento dentro do teatro. A gente incorpora. Não tem uma palavra, mas a gente consegue ler. O espetáculo chama-se: Os Nomes do Pai. A peça estreou em maio, no teatro Ágora, no bairro do Bexiga, em São Paulo.

Família e Lazer?

Eu tenho quatro filhos (dois rapazes e duas meninas) e dois netos que incluiria dentro do lazer (risos). Fiquei muito bobo e passei a brincar com os netos. Moro em Ribeirão Pires, no ABC, 50 km da capital, onde há bastante verde numa casa com quintal, tranquilo. Moro com minha mulher Adélia e com meus sogros (minha sogra teve um AVC). Eles moram lá com a gente. É muito bom dentro de casa ter velhos. Desperta na gente essa coisa de cuidar, tem que ter um cuidado muito especial, a relação é muito boa, velho é muito divertido, velho tem muitas histórias para contar. Isso é muito bom.

E minha vida atualmente é um pouco isso ficar em casa, trabalhando. Depois do skype, ainda, nem para fazer reunião eu saio mais. Eu sou caseiro. Gosto muito de viajar. Me dá um bom carro, me dá mil quilômetros de estrada que eu vou atrás, Gosto muito de dirigir, de conhecer outros lugares. Sempre fui muito curioso desde pequeno. Eu não gosto de fazer imagens objetivas. Lamento. Gosto muito de desviar; aonde vai dar essa estrada aqui, vamos ver, sabe?

Isso acontece com os textos, também?

Também, também, eu nunca sigo a mesma estrada, não. E, às vezes, enche o saco, o desvio não dá em lugar nenhum, meu (risada divertida). Eu conheço mais o personagem é nisso. Tudo bem, no começo eu não faço o perfil do personagem, eu imagino o personagem e ele vai se construindo. Eu elaboro muito bem o enredo, o planejamento, agora o personagem eu deixo meio solto e fico vendo como ele se vira naquelas ações e naquele destino do enredo que dou para ele. Às vezes estou querendo escrever um drama e ele desvia e se torna cômico.          

Livros ou autores recomendados?

Livros: Poética de Aristóteles (fundamental a quem se interessa por dramaturgia). 

Sugeriria a Experiência Viva do Teatro que é do crítico e pensador Eric Bentley.

Herbert Read que é um crítico de artes plásticas. Ele pensa a arte como um todo.

 Rudolf Arnheim que fala muito de artes visuais.

 Na dramaturgia, no teatro, tirando o Aristóteles, você encontra aqui o Brecht e alguns pensadores contemporâneos importantes.

Agora na minha formação eu descobri muitas coisas em outras áreas. Quem quiser fazer teatro não pode fica só no teatro, não. Literatura é fundamental. O Bakhtin é fundamental, um grande pensador. E as outras áreas todas. A dramaturgia, o teatro, não é um artifício, não é uma técnica tão somente. É uma visão de mundo, ou seja, para você aprender o mundo precisa estar equipado para isso. Então qualquer outra área cientifica é importante: psicologia é importante. Jung, Freud são importantes, são muito importantes. Mitologia… Tem que sempre ampliar porque o conhecimento é essa ampliação.

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